sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

ENTRE O OLIMPO E O UMBRAL

Ontem, a Rainha Marta fez 40 anos!

Você pode não gostar de futebol feminino. É um direito seu. Só não pode contestar, muito menos menosprezar, suas conquistas coletivas e individuais. Menos ainda, negar seu extraordinário talento.

Desde quando saiu do interior de Alagoas, aos 13 anos, de ônibus para tentar a sorte no Rio de Janeiro, mais precisamente no Vasco, até hoje, Marta jamais deixou de ser campeã em todos os times em que atuou pelo Brasil, Europa e EUA, inclusive no próprio Vasco, campeã brasileira sub-19 em 2001, o primeiro de seus títulos!

Seis vezes, cinco consecutivas, eleita a melhor do mundo pela FIFA! Imbatível! Assim como a instituição criou o Prêmio Puskas para o gol mais bonito do ano no futebol masculino, Marta batiza o mesmo prêmio para o feminino. E mais: ela mesma ganhou o primeiro em jogo do Brasil contra a Jamaica, em 2024. Pedalou pra cima da marcadora e, de fora da área, mandou um balaço com sua refinada canhota no ângulo superior esquerdo da goleira! Golaço-aço-aço!

A Rainha Insuperável!

Gols, golaços, dribles, assistências e uma liderança nata que valeram medalhas olímpicas, Pan-Americanos e Copas América para a seleção brasileira! Além de honrosas participações em Copas do Mundo. Parcerias históricas da camisa amarela com Formiga, Christiane, Andressa, Thamires, entre tantas! Uma galera que continua uma luta árdua contra o preconceito, apesar de levar no peito e na mente, a bandeira do país! Pena!

Se Marta merece estar condenada à eternidade junto aos Deuses do Futebol no Olimpo (sim, eles também estão por lá), outros precisam passar por ferrenhas provações.

Lá... no Olimpo!

No espiritismo, existe o umbral.

É um estado de consciência, uma condição espiritual para aqueles que, após a desencarnação, ainda se mantêm fortemente ligados à culpa, ao medo, ao ódio, à inveja, às ilusões da vida material e cujo conflito com o remorso e o arrependimento pode, veja bem, pode livrá-los de algo perversamente ruim. O umbral é uma porta, uma passagem cujo destino é incerto.

Ontem, o Vasco de Rio Branco, no Acre, jogou contra o Velo Clube de Rio Claro, de São Paulo, pela primeira fase da Copa do Brasil, na Arena da Floresta, na capital do Estado.

Na tradicional foto da formação do time antes da partida, o Vasco-AC apresentou três camisas com os nomes de três jogadores ausentes, como forma de homenageá-los.

Homenagem...

Brian, Serpa e Lekinho (e mais um, não citado nas camisas) estão presos, acusados de estupro coletivo de duas mulheres, cometido na concentração do clube. Importante ressaltar que o caso ainda irá a julgamento e cuja sentença caberá recurso e tudo mais.

Se o amigo leitor prestou bem atenção na foto acima, o goleiro do Vasco-AC é ele mesmo: BRUNO. Após o empate em 1 a 1, na disputa de pênaltis, o goleiro defendeu dois, fez um gol mas não evitou a derrota para os paulistas por 3 a 2.

Bruno, aos 41 anos, cumprirá sua pena de homicídio triplamente qualificado até 2031, agora em liberdade condicional.

Próxima Parada... Umbral?

O eterno acreano de Xapuri, Armando Nogueira, mestre nas palavras do futebol, se revira no túmulo!

O futebol vai agitar o umbral...

sábado, 14 de fevereiro de 2026

AS NOVAS CORES DA NEVE

Lucas nasceu em abril de 2000, em Oslo, capital da Noruega, país natal de seu pai, Bjorn Braathen, que no ano anterior, em um voo para Miami, conheceu Alessandra Pinheiro, de Campinas! E aí...

Foi criado por lá! Vinha sempre ao Brasil, visitar a mãe e familiares, e acabou desenvolvendo uma natural paixão pelo futebol. Seus ídolos: Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho! Embalado pelo tricampeonato brasileiro consecutivo (2006/07/08), o garoto adotou o São Paulo como time para torcer! 

Entretanto, a vida não era no calor dos trópicos! Mesmo matriculado em escolinha de futebol, os longos e escuros meses de frio impediam sequência grande de treinos mas havia um outro esporte em que isso não era um problema: o esqui!

Lucas não gostava. Aos 9 anos, sentia frio e dores nos pés, com os calçados especiais sempre apertados! Chegava a fingir que estava doente para não praticar com seu pai, seu maior incentivador.

Aos poucos, foi se desenvolvendo. O ganho de massa muscular com a adolescência e o aprimoramento técnico o fizeram ser selecionado para a equipe oficial de esqui alpino da Noruega. E o sucesso não demorou. Vitórias e vários pódios em etapas de Copa do Mundo o elevaram à condição de ídolo nacional do esporte mais popular do país.

É importante ressaltar que a mentalidade esportiva nórdica é bem diferente da que estamos acostumados por aqui. Mesmo em um esporte individual como esqui alpino, o que vale mesmo é o sentimento de equipe. Seu consequente sucesso é sempre resultado da soma dos esforços individuais de seus membros. Ter a bandeira da Noruega subindo durante uma premiação qualquer é mais importante do que saber os nomes dos responsáveis diretos por isso. Uma essência altiva, nobre ou qualquer outro desses adjetivos bacanas que servem pra qualificar uma das nações do mundo onde a justiça social é praticada com competência e honestidade. Afinal, a Noruega tem o segundo maior IDH do mundo, empatada com a Suíça e atrás somente da Islândia (2025).

Contudo, a federação norueguesa de esqui vinha exagerando. Contratos comerciais e ações de marketing firmados à revelia dos atletas. Para Lucas, foi ainda pior. A tal condição de ídolo nacional não foi bem vista pelos "cartolas" que começaram a associar sua imagem ao egoísmo e à ganância.

Visivelmente abatido, em outubro de 2023, Lucas convocou uma entrevista coletiva de imprensa para anunciar sua aposentadoria, mesmo que precoce aos 23 anos. Pane geral na Noruega!

A aposentadoria não durou 6 meses. Suas paixões brasileiras; o futebol, o samba, a bossa nova, o surf nas praias, o pão de queijo e as churrascarias o convocaram. Em março de 2024, a federação brasileira de esqui anunciava seu novo atleta: Lucas Pinheiro Braathen!

Mesmo após despencar no ranking mundial, Lucas foi resiliente com a inatividade de um ano. Teve humildade e paciência para, aos poucos, retomar seu lugar de destaque e colocar novas cores na neve: o verde e o amarelo! Canais a cabo e streamings começaram a transmitir etapas de copa do mundo aqui para o Brasil e a preparar os apaixonados por esporte (como eu) para o que viria nos Jogos Olímpicos de Inverno, neste fevereiro de 2026, em Milão-Cortina D'Ampezzo, Itália.

(O que foi Laura Pausini cantando "Fratelli D'Italia", o hino italiano, na abertura?! Arrepiante!)

A medalha de ouro conquistada por Lucas (porta-bandeira do Brasil na cerimônia de abertura), ainda há pouco, representa muito mais do que a primeira de um país latino americano ou somente a terceira de um do hemisfério sul, em evento cuja primeira edição aconteceu em 1924!

O próprio Lucas explica, em ótimo português: "Eu procuro sempre tentar o novo e isso eu tenho do meu lado brasileiro. O brasileiro arrisca mais, procura inovar, ele tenta, improvisa. Não existe medo. Meu lado brasileiro define quem eu sou, é grande parte de mim. É calor humano. Todo mundo ama, quer te conhecer, falar com você. É um sentimento mais próximo, sem julgamentos. Esse esporte precisa de outras cores, outras personalidades, do sentimento que a gente experimenta no Brasil com o futebol, este sentimento de alegria, de relação religiosa!"

O Futebol!
O Estilo

A Vitória
Ao subir no lugar mais alto do pódio, Lucas socou o ar!

O Secular Soco no Ar!
Lembrou de alguém?

domingo, 8 de fevereiro de 2026

ARBEX NELES

Não se espante pelo título!

Mas onde tem Arbex, tem defesa de Direitos Humanos!

Tem reflexão!

Tem emoção!

Tem denúncia!

Tem jornalismo investigativo sério!

Tem fatos convertidos em literatura premiada aqui e no exterior.

É assim que a mineira de Juiz de Fora, Daniela Arbex, vem construindo uma obra recheada de resgates do silêncio.

Para que o silêncio não se eternize, como ela mesma afirma.

Desde 2013, Daniela expõe mazelas dos maus tratos e atrocidades cometidos no maior hospício do Brasil, o Hospital Colônia de Barbacena-MG ("Holocausto Brasileiro"); a história não contada da tragédia da Boate Kiss em Santa Maria-RS ("Todo Dia a Mesma Noite"); os bastidores, causas e consequências do desastre de Brumadinho-MG ("Arrastados"); a realidade das prisões, torturas e sepultamentos ocultos da ditadura militar no Brasil ("Cova 312"); a trajetória da menina Isabel Salomão de Campos, da primeira geração de imigrantes libaneses em Minas Gerais nos anos 1920, sua luta contra o preconceito de gênero e o sincretismo religioso ("Os Dois Mundos de Isabel").

Streamings, Netflix especificamente, já possuem em seu cardápio documentários e encenações baseados em seus livros. Busque. Vale a pena.

Em 2024, sem planejar, entrou no mundo do futebol na sua parte podre. A mais podre!

Entretanto, a atual podridão do futebol não foi capaz de fazê-la desistir de entrar no seio de cada família dos meninos vitimados no tal "Ninho", um crime de incêndio culposo qualificado, hoje completando exatos 7 anos!


"Longe do Ninho" é muito mais do que um relato sobre a maior tragédia da história do futebol brasileiro. É uma obra que ajuda a entender como a transformação do futebol em negócio não mede consequências para a manutenção de seu status quo que preserva, de maneira cruel e sórdida, a sensação cada vez mais realista de que a impunidade venceu, sobretudo para proteger ou favorecer quem detém o poder.

Enquanto lia, passei por compaixão, tristeza, empatia, revolta, indignação e, infelizmente, paralisia por não saber o que fazer. Total incapacidade de reação. Senti-me minúsculo diante do gigantismo da morbidez, da canalhice e da arrogância.

Não quero me alongar muito lembrando este hediondo aniversário e finalizo, transcrevendo o último parágrafo de Daniela em "Longe do Ninho", contido na página 289.

"Um dia minha mãe me perguntou por que trato de temas tão dolorosos em meus livros. Respondi que, na verdade, não escolho escrever sobre tragédias mas sobre as omissões que causam tragédias, para que elas não se repitam. Afinal, se uma história não é contada, é como se ela não tivesse existido."

Obrigado Daniela! 

Parabéns por sua capacidade de reação!

E, por favor, não pare!