sábado, 14 de fevereiro de 2026

AS NOVAS CORES DA NEVE

Lucas nasceu em abril de 2000, em Oslo, capital da Noruega, país natal de seu pai, Bjorn Braathen, que no ano anterior, em um voo para Miami, conheceu Alessandra Pinheiro, de Campinas! E aí...

Foi criado por lá! Vinha sempre ao Brasil, visitar a mãe e familiares, e acabou desenvolvendo uma natural paixão pelo futebol. Seus ídolos: Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho! Embalado pelo tricampeonato brasileiro consecutivo (2006/07/08), o garoto adotou o São Paulo como time para torcer! 

Entretanto, a vida não era no calor dos trópicos! Mesmo matriculado em escolinha de futebol, os longos e escuros meses de frio impediam sequência grande de treinos mas havia um outro esporte em que isso não era um problema: o esqui!

Lucas não gostava. Aos 9 anos, sentia frio e dores nos pés, com os calçados especiais sempre apertados! Chegava a fingir que estava doente para não praticar com seu pai, seu maior incentivador.

Aos poucos, foi se desenvolvendo. O ganho de massa muscular com a adolescência e o aprimoramento técnico o fizeram ser selecionado para a equipe oficial de esqui alpino da Noruega. E o sucesso não demorou. Vitórias e vários pódios em etapas de Copa do Mundo o elevaram à condição de ídolo nacional do esporte mais popular do país.

É importante ressaltar que a mentalidade esportiva nórdica é bem diferente da que estamos acostumados por aqui. Mesmo em um esporte individual como esqui alpino, o que vale mesmo é o sentimento de equipe. Seu consequente sucesso é sempre resultado da soma dos esforços individuais de seus membros. Ter a bandeira da Noruega subindo durante uma premiação qualquer é mais importante do que saber os nomes dos responsáveis diretos por isso. Uma essência altiva, nobre ou qualquer outro desses adjetivos bacanas que servem pra qualificar uma das nações do mundo onde a justiça social é praticada com competência e honestidade. Afinal, a Noruega tem o segundo maior IDH do mundo, empatada com a Suíça e atrás somente da Islândia (2025).

Contudo, a federação norueguesa de esqui vinha exagerando. Contratos comerciais e ações de marketing firmados à revelia dos atletas. Para Lucas, foi ainda pior. A tal condição de ídolo nacional não foi bem vista pelos "cartolas" que começaram a associar sua imagem ao egoísmo e à ganância.

Visivelmente abatido, em outubro de 2023, Lucas convocou uma entrevista coletiva de imprensa para anunciar sua aposentadoria, mesmo que precoce aos 23 anos. Pane geral na Noruega!

A aposentadoria não durou 6 meses. Suas paixões brasileiras; o futebol, o samba, a bossa nova, o surf nas praias, o pão de queijo e as churrascarias o convocaram. Em março de 2024, a federação brasileira de esqui anunciava seu novo atleta: Lucas Pinheiro Braathen!

Mesmo após despencar no ranking mundial, Lucas foi resiliente com a inatividade de um ano. Teve humildade e paciência para, aos poucos, retomar seu lugar de destaque e colocar novas cores na neve: o verde e o amarelo! Canais a cabo e streamings começaram a transmitir etapas de copa do mundo aqui para o Brasil e a preparar os apaixonados por esporte (como eu) para o que viria nos Jogos Olímpicos de Inverno, neste fevereiro de 2026, em Milão-Cortina D'Ampezzo, Itália.

(O que foi Laura Pausini cantando "Fratelli D'Italia", o hino italiano, na abertura?! Arrepiante!)

A medalha de ouro conquistada por Lucas (porta-bandeira do Brasil na cerimônia de abertura), ainda há pouco, representa muito mais do que a primeira de um país latino americano ou somente a terceira de um do hemisfério sul, em evento cuja primeira edição aconteceu em 1924!

O próprio Lucas explica, em ótimo português: "Eu procuro sempre tentar o novo e isso eu tenho do meu lado brasileiro. O brasileiro arrisca mais, procura inovar, ele tenta, improvisa. Não existe medo. Meu lado brasileiro define quem eu sou, é grande parte de mim. É calor humano. Todo mundo ama, quer te conhecer, falar com você. É um sentimento mais próximo, sem julgamentos. Esse esporte precisa de outras cores, outras personalidades, do sentimento que a gente experimenta no Brasil com o futebol, este sentimento de alegria, de relação religiosa!"

O Futebol!
O Estilo

A Vitória
Ao subir no lugar mais alto do pódio, Lucas socou o ar!

O Secular Soco no Ar!
Lembrou de alguém?


Nota de pé de página: Lucas tentará nova medalha na segunda-feira, 16! Atualizarei aqui.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

ARBEX NELES

Não se espante pelo título!

Mas onde tem Arbex, tem defesa de Direitos Humanos!

Tem reflexão!

Tem emoção!

Tem denúncia!

Tem jornalismo investigativo sério!

Tem fatos convertidos em literatura premiada aqui e no exterior.

É assim que a mineira de Juiz de Fora, Daniela Arbex, vem construindo uma obra recheada de resgates do silêncio.

Para que o silêncio não se eternize, como ela mesma afirma.

Desde 2013, Daniela expõe mazelas dos maus tratos e atrocidades cometidos no maior hospício do Brasil, o Hospital Colônia de Barbacena-MG ("Holocausto Brasileiro"); a história não contada da tragédia da Boate Kiss em Santa Maria-RS ("Todo Dia a Mesma Noite"); os bastidores, causas e consequências do desastre de Brumadinho-MG ("Arrastados"); a realidade das prisões, torturas e sepultamentos ocultos da ditadura militar no Brasil ("Cova 312"); a trajetória da menina Isabel Salomão de Campos, da primeira geração de imigrantes libaneses em Minas Gerais nos anos 1920, sua luta contra o preconceito de gênero e o sincretismo religioso ("Os Dois Mundos de Isabel").

Streamings, Netflix especificamente, já possuem em seu cardápio documentários e encenações baseados em seus livros. Busque. Vale a pena.

Em 2024, sem planejar, entrou no mundo do futebol na sua parte podre. A mais podre!

Entretanto, a atual podridão do futebol não foi capaz de fazê-la desistir de entrar no seio de cada família dos meninos vitimados no tal "Ninho", um crime de incêndio culposo qualificado, hoje completando exatos 7 anos!


"Longe do Ninho" é muito mais do que um relato sobre a maior tragédia da história do futebol brasileiro. É uma obra que ajuda a entender como a transformação do futebol em negócio não mede consequências para a manutenção de seu status quo que preserva, de maneira cruel e sórdida, a sensação cada vez mais realista de que a impunidade venceu, sobretudo para proteger ou favorecer quem detém o poder.

Enquanto lia, passei por compaixão, tristeza, empatia, revolta, indignação e, infelizmente, paralisia por não saber o que fazer. Total incapacidade de reação. Senti-me minúsculo diante do gigantismo da morbidez, da canalhice e da arrogância.

Não quero me alongar muito lembrando este hediondo aniversário e finalizo, transcrevendo o último parágrafo de Daniela em "Longe do Ninho", contido na página 289.

"Um dia minha mãe me perguntou por que trato de temas tão dolorosos em meus livros. Respondi que, na verdade, não escolho escrever sobre tragédias mas sobre as omissões que causam tragédias, para que elas não se repitam. Afinal, se uma história não é contada, é como se ela não tivesse existido."

Obrigado Daniela! 

Parabéns por sua capacidade de reação!

E, por favor, não pare!

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

COPINHA OU COPÃO?

Já escrevi aqui em COPA EMPRESÁRIOS DE FUTEBOL JUNIOR como a Copa São Paulo se transformou basicamente em vitrine para venda de jovens jogadores. Há muito tempo sua credibilidade vem definhando.

A quantidade de times que a disputa só aumenta ao longo dos anos (128 nesta edição), em condição inversamente proporcional ao seu interesse pelos torcedores, sobretudo daqueles de fora do estado de São Paulo. Vejamos os motivos.

A Federação Paulista, organizadora do torneio, privilegia os grandes paulistas com gramados melhores em estádios mais próximos da capital. Esse ano, inclusive, o Palmeiras jogou na Arena Barueri, onde já exerce mando de campo com sua equipe principal quando o Allianz Park está cedido para shows. O estádio foi todo reformado pelo clube recentemente!

Outro fator importante é que a CBF já possui no seu calendário oficial o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil nas categorias Sub20 e Sub17, desde 2015. Competições que possuem grade nas emissoras de TV e streaming e que classificam campeões para competições sul-americanas, jogado por alguns meses, ou seja, uma duração muito superior aos vinte e poucos dias da Copa SP.

Sempre jogada em janeiro, a "Copinha" era a maneira pela qual os torcedores continuavam acompanhando futebol, em época de recesso das equipes principais. Já há um bom tempo, os famigerados e ultrapassados estaduais precisam começar cada vez mais cedo para comportar todo o calendário brasileiro e acabam minando seu interesse. Este ano, por exemplo, o Flamengo abriu mão de jogar o torneio pois tinha que colocar seu time Sub20 no Carioca, uma vez que o principal ainda estava de férias, iniciada somente no fim do ano passado, devido à disputa da Copa Intercontinental.

Mesmo assim, a "Copinha" sobrevive! E tem o dom de revelar não mais um ou outro ótimo jogador mas times inteiros, não necessariamente recheados de craques, mas muito mais pela curiosidade, envolvendo nomes estranhos, sediados em pequenas cidades longínquas dos grandes centros e, ainda assim, fazendo vítimas entre times tradicionais no Brasil. Todos, sem exceção, propriedades de empresários em Sociedade Anônima de Futebol, a famosa e popular SAF. Alguns exemplos da edição deste ano.

O Guanabara City, fundado em 1999, nada tem a ver com a baía no Rio de Janeiro, mas com o populoso bairro do Jardim Guanabara, em Goiânia-GO. Ainda não possui um estádio próprio e costuma mandar seus jogos no recém reformado Estádio Olímpico na cidade. Na Copinha, venceu o Vasco na fase de grupos, assim como o Botafogo de Ribeirão Preto, Tuna Luso de Belém-PA e só foi eliminado pelo Cruzeiro nas Quartas de Final. Entre suas revelações, está o atacante Carlos Vinícius, hoje fazendo sucesso no Grêmio.

3x1 no Vasco
Em 1959, alguns amigos estavam num bar à noite, em Patrocínio Paulista, perto de Franca-SP. Jogavam "pelada" em um campo bem ao lado do cemitério da cidade que hoje possui cerca de 15 mil habitantes. Na época, bem menos. Começaram a discutir como batizariam seu "novo" clube. As doze badaladas da Igreja, sempre ouvidas em alto e bom som, não deixaram dúvida: Esporte Clube Meia Noite! SAF desde o ano passado, derrotaram o Coritiba na fase de grupos (2x0) mas não resistiram ao Cruzeiro na segunda fase. Entre as revelações, o atacante Vitor Bueno que rodou por Santos, São Paulo, Athletico-PR e hoje está no Cerezo Osaka do Japão.

Thriller?

Cruz Credo!
Os chineses também chegaram. O Instituto Sociocultural Brasil-China foi fundado na Avenida Paulista em 2018. Dois anos depois, já possuía seu braço no futebol brasileiro. O Ibrachina Futebol Clube tem até estádio no bairro paulista da Mooca (terra do Juventus), com capacidade para 600 torcedores. E fez bonito! Chegou às semifinais, perdendo para o São Paulo, após vencer o Bangu e o Ferroviário-CE na fase de grupos e eliminar Atlético-MG, Santo André, Internacional e Palmeiras nas fases seguintes! Um feito extraordinário! Entre as revelações, o lateral direito Daniel Sales, que atuou nas partidas iniciais do Sub20 com o Flamengo no Carioca, inclusive o último clássico contra o Vasco.

Ameaça à Rua Javari do Juventus!
Ah! Sim! Já ia me esquecendo!

O Cruzeiro derrotou o São Paulo por 2 a 1, na tradicional Final em 25 de Janeiro (feriado de fundação da cidade de São Paulo) no Pacaembu, conquistando seu segundo título na competição!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

UM ROTEIRO PARA O MANÉ

O Futblog dos Amigos nunca entra em férias! Pelo menos, oficialmente... rsrs!

Um ótimo 2026 para você!

O ano já começa agitado no futebol mundial! Polêmica na Copa Africana de Nações!

Ontem, a Final reuniu o anfitrião Marrocos, em Rabat, contra o Senegal. Sem dúvida, as duas melhores seleções do continente na atualidade e, claro, já classificadas para a Copa do Mundo deste ano.

O jogo foi chato, poucas chances de gol, algumas boas defesas do goleiro marroquino Bounou que trabalhou mais que o seu colega Mendy. Chegaram os acréscimos concedidos pelo péssimo árbitro gabonês Pierre Atcho.

Escanteio para o Senegal! Uma disputa normal pela bola, terminou com um cabeceio na trave e na volta, gol! Inexplicavelmente, mas em cima do lance, Monsieur Atcho assinalou falta no momento do cabeceio, anulando o gol! Erro crasso! Senegaleses loucos da vida mas como a marcação da falta aconteceu antes do gol, o VAR não podia chamar o árbitro.

O jogo seguiu, ainda nos acréscimos, e escanteio para o Marrocos! Durante a trajetória da bola, o zagueiro senegalês deu uma clara "gravata" no atacante marroquino Brahim Diaz, astro do Real Madrid, dentro da área! Pênalti! Monsieur Atcho nada marcou. O jogo seguiu com muitas reclamações dos marroquinos. Então, o VAR chamou!

Uma grande confusão foi formada na área do VAR! Parecia jogo de terceira divisão do Carioqueta! Depois de muito tumulto, Monsieur Atcho assinalou o pênalti para os anfitriões!

O clima de revolta tomou conta da seleção de Senegal e algo inédito aconteceu: liderados pelo treinador Pape Thiaw, comissão técnica e jogadores se retiraram de campo na direção do vestiário, como se estivessem abandonando o jogo, sob protesto contra a arbitragem. 

Exceto um!

Sadio Mané nasceu há 33 anos em uma pequena cidade chamada Bambali, a 450 quilômetros da capital Dakar. Aos 15, fugindo da fome, conseguiu um dinheiro emprestado com um amigo para comprar uma passagem de ônibus até a capital. Já havia contatado uma família que o recebeu e começou a fazer o que mais gostava: jogar futebol. Mesmo sem chuteiras e roupas adequadas, chamou a atenção de olheiros do Génération, clube local, jogando na várzea. O estilo dinâmico, com habilidade, toques rápidos, precisos e bom chute ao gol o levaram rapidamente ao francês Metz, clube parceiro, aos 18 anos.

Daí, a fama começou! RB Salzburg e Southampton catapultaram sua contratação pelo gigante Liverpool, onde atuou por sete temporadas, campeão de tudo e idolatria total. Período em que Mané jamais caminhou sozinho (*)! Depois, novamente campeão em outro gigante europeu, Bayern de Munique!

Nunca sozinho!
Claro que veio a seleção senegalesa, capitão do time, camisa 10 e Copa do Mundo! O dinheiro não lhe subiu à cabeça. Ao contrário, grande parte de seu alto salário de estrela do futebol mundial sempre foi dedicada para erguer escolas e hospitais em Bambali e em outras localidades pequenas pelo Senegal. Sua fama fez arrecadar alimentos e materiais de construção para dar condições dignas às crianças de famílias mais pobres. Em 2022, Mané recebeu o Prêmio Sócrates da Revista France Football que reconhece e homenageia personalidades do futebol que promovem ações de solidariedade mundo afora! Um exemplo extraordinário!

Exemplo!

Herói...

... Nacional...
Volta rápida para Rabat!

Mané contrariou o treinador da seleção e não deixou o campo de jogo. Conversou com o quarteto de arbitragem, delegados da Confederação Africana e garantiu que traria o time de volta. Sabia que as sanções da FIFA seriam pesadas, ainda mais a poucos meses de uma Copa do Mundo!

Dito e feito. Senegal voltou!

Era pênalti para o Marrocos. E tudo indicava que o jogo seria encerrado após a cobrança. O camisa 10 Brahim Diaz beijou várias vezes a bola. É ótimo jogador! Ele nasceu em Málaga, na Espanha, filho de mãe espanhola e pai marroquino há 26 anos. Ele sabia que a última conquista da seleção que escolheu defender neste torneio havia sido em 1976; há 50 anos, portanto.

Brahim deu uma "cavadinha" ridícula que o goleiro Mendy não teve a menor dificuldade em defender!

A festa senegalesa ainda ficaria muito maior quando Monsieur Atcho apitou o fim da prorrogação com a vitória dos amigos de Mané por 1 a 0, agora campeões da África!

... de Verdade!
Sadio Mané continua a desfilar seu futebol na Arábia Saudita, ou seja, continua a ajudar seus conterrâneos a se educarem e manterem boa saúde. Sua condição de herói nacional está eternizada na mente e no coração de cada senegalês!

Obrigado Mané por sua liderança, seu carisma, sua iniciativa, seu talento! 

Você tem nome de gênio brasileiro do mesmo esporte que pratica! Não poderia ser diferente!

Alô roteiristas de cinema! O que estão esperando?


(*) No escudo do Liverpool, há uma expressão que também é o título do hino do clube: You'll Never Walk Alone! (você nunca andará sozinho!), cantado por seus torcedores no Anfield Road Stadium, imediatamente antes dos jogos começarem!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

TEM BARBA, CABELO E BIGODE BRANCOS E NÃO É O PAPAI NOEL (MAS É COMO SE FOSSE)

O meio-campista Afonsinho é um autêntico Papai Noel!

Ele trouxe o maior presente que todo jogador brasileiro sempre sonhou em receber, desde a profissionalização do futebol em meados dos anos 1930.

O passe livre!

E fez isso vinte e quatro anos antes da Lei Bosman e mais três antes da Lei Pelé no Brasil!

Afonsinho nasceu em Marília, interior de São Paulo, e foi contratado pelo Botafogo em 1966, revelado pelo XV de Jaú. Tinha um estilo clássico no meio de campo: ótima visão de jogo, toque de bola diferenciado, habilidoso e preciso lançador! Craque de bola!

Bom Moço?

1969: Moreira, Cao, Chiquinho, Moisés, Valtencir e Carlos Roberto. Rogério, Afonsinho, Ferreti, Jairzinho e Paulo Cézar.

De boa formação acadêmica, iniciou faculdade de Medicina no Rio, ao mesmo tempo em que cumpria os treinos em seu novo clube. Só que sua militância em movimentos estudantis começou a chamar a atenção do regime militar, então imposto em 1964, que o monitorava. Muitas de suas declarações não foram muito bem apreciadas dentro do próprio Botafogo. Aliás, todos os clubes possuíam profissionais oriundos das Forças Armadas: treinadores, preparadores físicos, médicos, enfermeiros, etc. E isso não foi coincidência.

Como tentativa de reduzir tais efeitos, por mais de uma vez, acabou emprestado ao pequeno Olaria com menos badalação e, claro, menos risco. Entretanto, quando voltou ao Botafogo, pela última vez em 1970, tinha um visual diferente: barba, cabelo e bigode enormes! Parecia um "guerrilheiro"!

Menos risco...

Guerrilheiro?
Seu treinador, o agora tricampeão mundial Zagallo, exigiu "cara limpa"! Um diretor de futebol do clube chegou a lhe dizer que parecia um cantor de iêiêiê, em clara referência aos Beatles que se separaram exatamente neste ano! Afonsinho não respeitou a ordem e foi suspenso internamente.

Tentou de tudo para ser negociado e o Botafogo jamais o liberou. São Paulo, Santos, Atlético-MG e Cruzeiro fizeram propostas. Importante ressaltar que, mesmo com contrato vencido, os clubes não eram obrigados a negociar qualquer jogador. Era a Lei do Passe.

Afonsinho reuniu os advogados Rui Piva e Raphael de Almeida Magalhães e foi ao STJD buscar seus direitos! Inovou, arriscou, suou e venceu. Em março de 1971, foi o primeiro jogador de futebol a ter o passe livre no Brasil. Fim da escravidão!

Deu seguimento à carreira, jogando no Vasco, Santos (com Pelé), Flamengo e América-MG. Após alguns anos de pausa para concluir a graduação e especialização em Medicina, encerrou a carreira no Fluminense aos 34 anos, em 1981. Já como médico, trabalhou no Instituto Pinel em Botafogo e em vários projetos sociais. Fixou residência na Ilha de Paquetá (onde mora até hoje), criou o time amador do Trem da Alegria, onde convoca ex-jogadores, jornalistas e amigos para promover eventos beneficentes.

1972: Cejas, Orlando Lelé, Oberdan, Paulo, Clodoaldo e Zé Carlos. Edu, Afonsinho, Alcindo, Pelé e Ferreira.
A trajetória de Afonsinho está muito bem contada no ótimo documentário de Lucio Branco e de nome óbvio: "Barba, Cabelo e Bigode" (2016). Seus companheiros de Botafogo, Paulo Cézar Caju e Nei Conceição, também estão inseridos ali. Imperdível!

Ontem, mais um célebre episódio do "Museu da Pelada", do grande Sérgio Pugliese, reuniu ex-jogadores no tradicional ponto de encontro do Leblon, no Rio, o Bar Bigorrilho (onde eu lancei a Trilogia Futebol em Milhares de Palavras), do botafoguense Rômulo que promete novidades. A conferir!

Quem estava? Ele mesmo: Afonsinho! Em resenha com seus contemporâneos Nei Conceição, Carlos Roberto e Moreira, além dos tricolores Pintinho (Rei de Sevilha) e o goleiro Nielsen.

Uma oportunidade única para ofertar minha trilogia e tirar uma foto com um dos grandes personagens do futebol brasileiro.

Um blog sobre futebol! No Natal! Com o "Papai Noel" dos jogadores brasileiros!

Feliz Natal e um ano novo realmente novo!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

ELIMINATÓRIAS DA COPA - OCEANIA: CORRA QUE A ÁGUA VEM AÍ

Já há mais de uma década que as nações insulares do Pacífico vêm sofrendo com as malfadadas alterações climáticas da Terra. São ciclones tropicais, enxurradas, tsunamis que, aos poucos, ameaçam seriamente a área em terra firme, com a consequente elevação do nível dos oceanos. Países como Tuvalu, Tonga, Ilhas Salomão e Samoa Ocidental, por exemplo, correm risco real de desaparecerem em cinquenta anos. Quando a ONU decidirá fazer uma COP na região? Quando ONU? Quando?

Imagine planejar um futuro nestas condições para as próximas gerações que passa por educação, saúde, alimentação, moradia, mobilidade e.. onde jogar futebol????

Ministro de Tuvalu...No máximo... Polo Aquático!
Assim, o futebol na Oceania tem aquele "que" de diferente! Com a saída da Austrália da OFC (Oceania Football Confederation), em 2006, a Nova Zelândia ocupa um protagonismo solitário, em escala técnica e profissional muito superior a de seus 10 colegas-membros.

Começou sua História nas Copas do Mundo em 1982, Espanha. Após perder para Escócia e URSS, havia um último compromisso: o Brasil, de Telê Santana! O Estádio Benito Villamarin, do Bétis, em Sevilha, viu os semiamadores neozelandeses participarem de um magistral "treino" oficial com 2 gols de Zico (em lindas jogadas com Leandro), Falcão e Serginho. Vinte e oito anos depois, na África do Sul, a evolução técnica e física foi notória. Foram 3 empates contra Eslováquia, Paraguai e Itália, contribuindo diretamente para a eliminação da Azzurra.

Com a confirmação de uma vaga fixa para o continente a partir de 2026, é natural pensar que os All Whites têm tudo para se tornarem figurinhas carimbadas em todas as Copas, a partir de agora. Na América do Norte, terá uma possível despedida de seu maior jogador em todos os tempos: Chris Wood! Jogando praticamente toda a vida na Inglaterra, hoje aos 34 anos, o atacante e capitão, nascido em Auckland,  já fez mais de 200 gols na carreira e continua brilhando no Nottingham Forest.

All Whites... For ever!

Wood, o Cara!
Vale a pena comentar a seleção que irá disputar a repescagem mundial, após perder a Final das Eliminatórias, obviamente, para a Nova Zelândia.

Mais do que a ida à repescagem mundial, a Nova Caledônia tem muito mais a comemorar. Em julho deste ano de 2025, um novo acordo histórico foi firmado com a antiga metrópole, a França, criando o Estado da Nova Caledônia, com ampla autonomia, nova bandeira, mantendo opção de cidadania e respeito à constituição francesa e, espera-se, um definitivo fim às animosidades seculares registradas entre ambos. Trata-se de um arquipélago situado a uns 1500 quilômetros a leste da Austrália. Sua população de 280 mil habitantes é apaixonada por futebol e possui campeonatos nacionais desde 1950, com média de 10 times participantes.

Agora sem menção à metropole!


Os neocaledônios ainda são semiamadores mas tentarão a proeza de vencer a Jamaica e depois a RD Congo, em março 26, nos EUA, para fazer história no futebol do continente (?). Conta com a experiência do ídolo maior Bertrand Kaï, capitão e atacante de 42 anos, autor de 23 gols em 41 jogos pela sua seleção! Um mito polinésio!
 Kaï, o mito!
Já dá pra acompanhar o sorteio dos grupos da Copa do Mundo 2026, amanhã, certo? 

Sim, sim, após montagem dos grupos, Pai "Osmar de Copa" dará seus pitacos...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

ELIMINATÓRIAS DA COPA - ÁSIA: OS ELEITOS DA MEIA TERRA VITORIANA

"O Império onde o sol nunca se põe"!

Assim era conhecido o ápice do Império Britânico, sobretudo aos tempos da Rainha Vitória! De Leste a Oeste, sempre havia uma súdita colônia no globo terrestre. Chegou a um quinto de cobertura do mundo!

Guardadas as devidas proporções, a AFC (Asian Football Confederation) somente não chega a ser uma concorrente direta de Dona Vitória apenas por conta dos pontos cardeais. Agora, de Norte a Sul, da ponta leste do Mar Mediterrâneo (sem Israel, claro), passando pela península arábica até a Austrália! De fato, sua abrangência é tão notória que possui cinco divisões regionais, com Copas específicas. E ainda pode ficar maior. Bem maior! Seu 48o. membro deverá ser aquele país cujo "dono" está "putin" da vida com a UEFA e a FIFA...

O 47o. já foi bem grande. Em janeiro de 2006, com a autorização da FIFA, a Austrália oficializou sua entrada, deixando a Confederação da Oceania. Alegou critérios técnicos e financeiros, aliás, bem justos. Já organizou e venceu a Copa da Ásia em 2015 e jamais deixou de se classificar para a Copa do Mundo, inclusive para 2026.

A Ásia tinha 4 ou 5 vagas para a Copa, passando agora para 8 ou 9. Em uma primeira fase, fez 10 playoffs com os 20 piores do ranking FIFA. Teve Macau, Sri Lanka, Timor Leste, Brunei, Guam, Bangladesh, Nepal, Butão, Laos, Myanmar...

Na segunda, estes 10 ajudaram a formar 9 grupos de 4 seleções, onde as 2 primeiras de cada passaram à terceira fase, formando 3 grupos de 6 seleções, onde as duas melhores de cada garantiram vaga na Copa. Os terceiros e quartos formaram a quarta fase em dois grupos de 3 seleções. Os vencedores de cada um também garantiram vaga. Os segundos fizeram uma disputa de ida e volta, onde o Iraque levou a melhor sobre os Emirados Árabes e vai disputar a repescagem mundial, esperando o vencedor de Bolívia x Suriname, no México. Ufa!

Dentre os já classificados, duas estreias. A primeira é a ex-república soviética Uzbequistão, cujo maior destaque está no banco. O treinador é o ex-zagueiro italiano Fabio Cannavaro, eleito o melhor jogador da Copa 2006, quando a Azzurra chegou ao seu Tetra! Dentro de campo, valerá a pena observar o zagueiro Khusanov, do Manchester City, o meiocampista, camisa 10, Ganiev do Al-Bataeh dos Emirados Árabes, e o capitão e atacante Shomurodov do Basaksehir da Turquia. Na Terceira Fase, o Uzbequistão garantiu vaga em segundo lugar no grupo em que o Irã foi o vencedor e mandou Catar e Emirados Árabes para a Quarta, eliminando o Quirguistão e a Coreia do Norte.


Zagueiraço!
A Jordânia pode parecer uma grande zebra mas aos desavisados aqui vai: é a atual vice-campeã asiática, quando perdeu a final para o Catar, que jogava em casa, em janeiro de 2024! Na Terceira Fase, ficou em segundo, somente atrás da sempre favorita Coreia do Sul, mandando Iraque e Omã para a Quarta e eliminando Kuwait e Palestina! Por falar em Palestina, o treinador marroquino Jamal Sellami tem um "super trunfo" (lembra desse jogo?) nas mãos: Mousa Al-Tammari! camisa 10, ídolo nacional, o "Messi da Jordânia", craque no Rennes da França (Liverpool de olho...) e nascido na Cisjordânia, ou seja, etnia palestina! Será uma grande atração na Copa!


Mes.. ops.. Mousa Al-Tammari!
Ainda falta uma Confederação! E precisamos correr antes que acabe...

No próximo, explicarei! Até lá!