Jhon Arias foi ídolo no Fluminense. Contribuiu diretamente para títulos importantes conquistados pelo clube nos últimos quatro anos. Habilidoso, forte, ótimo finalizador. Pelo tricolor, chegou à seleção colombiana. No ano passado, ao ser negociado com o inglês Wolverhampton, "jurou" voltar ao Brasil somente para o Fluminense. Ao voltar este ano para o Palmeiras, o jogador exerceu seu livre arbítrio para prosseguir com sua carreira mas a torcida tricolor não esqueceu aquela declaração. Na semana passada, no Maracanã, na primeira partida semifinal da Libertadores, quase 70 mil tricolores vaiaram impiedosamente o ex-ídolo, que teve participação apenas discreta na vitória paulista por 2 a 1. Mas toda a vez que a bola passava por seus pés, a vaia era uníssona. Eu estava lá (mas não o vaiei...). Foi impressionante.
Entretanto, nem de longe, esta foi a maior vaia já vista no outrora "maior estádio do mundo"!
Julio "Julinho" Botelho foi um ponta-direita excepcional. Aliás, mais que isso. Foi um dos grandes craques de todo o mundo na década de 1950. Dentro e fora do campo. Nascido em 1929, no bairro da Penha, zona leste da cidade de São Paulo, foi revelado pelo Juventus da Mooca, titular aos 20 anos. Já em 51, contratado pela Portuguesa, formou um lado direito poderoso com Brandãozinho e Djalma Santos no Canindé. Julinho era rápido, drible insinuante e forte chute cruzado. Goleador implacável. Campeão do Rio-SP em 1952 e 55.
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| Surge um novo talento no Canindé |
A seleção brasileira chegou. Copa do Mundo de 1954, na Suíça, titular absoluto, fez dois golaços: o primeiro na estreia contra o México, o segundo, outra pintura contra a temida Hungria. O mundo, em especial a Europa, já o conhecia dois anos antes, quando a Portuguesa fez campanha invicta em amistosos por lá. A atuação de gala na Copa chamou a atenção da tradicional equipe italiana da Fiorentina.
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| Na Seleção da Copa 1954 |
Fundada em 1926, a Fiorentina só havia conquistado um título importante: A Coppa Italia de 1940. Com Julinho, o primeiro dos 2 títulos italianos chegou em 1956 (o outro viria em 1969). Suas atuações o elevaram ao patamar de ídolo maior do clube em toda a sua História. Tinha que andar disfarçado por Florença e entrava no seu restaurante preferido pela porta dos fundos e mesa escondida. Só andava de trem com chapéu e bigode falso. Uma idolatria incontrolável.
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| Hall da Fama em Florença |
Recusou a convocação para a Copa de 1958. Era raro um jogador que não atuasse no Brasil jogar na seleção. Julinho afirmou ao treinador Vicente Feola que não achava justo um certo ponta do Botafogo ficar de fora, uma vez que o outro convocado era Joel do Flamengo.
Após a Copa, Julinho manifestou interesse em voltar para o Brasil. A Fiorentina fez um oferta irrecusável para ficar até abril de 1959. Ele aceitou mas sem muito brilho. Sua fisionomia denunciava uma condição que os jornalistas italianos não tardaram a lhe dar o apelido de Signore Tristezza, com saudade da terra natal.
Vasco e Fluminense fizeram propostas mas foi o Palmeiras que o repatriou. E assim que voltou, no dia 13 de maio de 1959, havia um amistoso importante marcado para o Maracanã: Brasil x Inglaterra!
Oficialmente, havia cerca de 117 mil torcedores. Os penetras e afins podem ter inflado o público para 160 mil que não entenderam nada, após ouvirem a escalação da seleção pelos alto-falantes do estádio:
Gylmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando, Nilton Santos, Dino Sani, Didi, JULINHO, Henrique Frade, Pelé e Canhoteiro.
E Garrincha??? Há versões que dizem que havia chegado ao Maracanã... alcoolizado!
O bairrismo carioca fez com que uma vaia de 160 mil pessoas ecoasse em cima de um único jogador: o paulista Julinho, recém chegado da Itália. Nem os Hinos Nacionais puderam ser ouvidos com nitidez. Repórteres de campo e narradores de rádio tiveram dificuldades para transmitir informações.
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| Julinho, Didi, Henrique Frade, Pelé e Canhoteiro. Só vaia! |
O jogo começou e as vaias continuaram intensas e ininterruptas. Algo assustador. Julinho só pegou na bola aos 2 minutos. E quando pegou, driblou 2 ingleses e mandou um "balaço": 1 a 0. Golaço!
As vaias diminuíram. Não acabaram. Logo depois, Julinho foi acionado por Didi, driblou mais 2 e deixou o centroavante rubro-negro Henrique Frade na cara do gol: 2 a 0!
Com elegância e altivez, Julinho comemorou os gols com alegria e garra! Durante todo o jogo, desfilou um recital de dribles, toques rápidos, cruzamentos perfeitos, chutes a gol. Uma atuação de gala. O Brasil ganhou. Os 160 mil passaram a aplaudir efusivamente um dos maiores jogadores do mundo. O célebre cronista Nélson Rodrigues descreveu a tarde no Maracanã como "uma das maiores lições de dignidade da História do Futebol Brasileiro. Um milagre do Futebol". Julinho chorava! Não mais como o Signore Tristezza mas de alguém que estava de volta ao seu país, ovacionado e consagrado neste depoimento histórico:
" - De que maneira poderia replicar as vaias? Confesso que fiquei estupefato. Natural que preferissem Garrincha. Mas me vaiar por quê? O público esquece depressa. De certo, já não se lembrava de mim. Pois tudo que fiz contra os ingleses foi reavivar a memória do público. De resto, tudo bem! O público acabou fazendo as pazes comigo!"
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| Acima da Vaia |
Pelo Palmeiras, no ano seguinte, conquistou o Paulista, vencendo o Santos de Pelé na Final no Pacaembu. Foi parte integrante da "Primeira Academia" do Verdão, com grandes atuações até 1967, aos 38 anos. Antes, foi convocado para a Copa de 1962, mas lesionado, sugeriu ao treinador Aymoré Moreira que convocasse Jair da Costa, da Portuguesa, em grande fase. Aymoré insistiu que aceitasse pois haveria tempo para recuperação. Julinho foi enfático ao citar o que seria uma grande injustiça. Jair foi à Copa como reserva de Garrincha! Logo depois, foi ídolo na Internazionale de Milão!
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| Vencendo o Rei em 1960! |
A vida de Julinho Botelho é um exemplo que todos os jogadores de futebol, ao menos do Brasil, deveriam conhecer.
Mas isso não dá like...















