sexta-feira, 13 de março de 2026

A PAZ FIFA


No evento do sorteio dos grupos da Copa do Mundo no último dia 5 de dezembro nos EUA, o suíço Gianni Infantino anunciou um novo prêmio a ser entregue pela instituição que preside: a "PAZ FIFA - O Futebol Une o Mundo", para agraciar todo aquele que "promover esforços pela paz mundial"!

A FIFA sempre se orgulhou de sua óbvia e necessária neutralidade política. Possui mais filiados que a ONU há muito tempo e a designação do prêmio é coerente com seu objetivo histórico: o futebol unindo o mundo.

Os escândalos de 2015 abalaram a instituição até então vista pela maioria da opinião pública como exemplo de administração profissional, exitosa em finanças, marketing e primorosa em execução. Falei sobre isso aqui: FUTEBOL ESTÁ MORTO. VIDA LONGA AO FUTEBOL!

Ao longo destes dez anos e pouco, Infantino conseguiu tirar a FIFA das páginas policiais mas crise de credibilidade é algo muito complicado de se superar. Leva tempo. O aumento de prestígio e interesse das competições da UEFA tem sido um estorvo e a concorrência na busca por audiência e contratos de patrocínio está cada vez mais acirrada.

A Copa do Mundo de Clubes, cuja primeira edição foi realizada nos EUA, no ano passado, mostrou um novo patrocinador da FIFA, talvez seu mais poderoso em todos os tempos: PIF - Public Investment Fund!

Fundo de investimentos oficial do governo da Arábia Saudita, atualmente com ativos chegando a quase um trilhão de dólares. Embora não seja novo (criado em 1971), somente agora vem focando no esporte de maneira mais incisiva e não à toa, a FIFA já direciona a Copa Intercontinental de Clubes (o antigo Mundial) por lá e pelos Emirados Árabes Unidos há bastante tempo. Não custa lembrar que a última Copa do Mundo de Seleções foi no Catar e a de 2034 já está prometida para a mesma Arábia Saudita! Coincidência, claro!

Assim, é muito fácil afirmar que as relações da FIFA com o Mundo Árabe cresceram exponencialmente nos últimos vinte anos!

Voltando ao Prêmio PAZ FIFA...

A intempestividade da criação desse prêmio só não é mais absurda que o seu primeiro vencedor! Afinal, para que serve o Instituto Nobel?

O absurdo vai piorando à medida em que o Ministro dos Esportes do Irã afirma que sua seleção de futebol, classificada com méritos dentro de campo, não participará da Copa do Mundo de Futebol pois não há "clima" para uma delegação esportiva oficial de seu país passar algumas semanas no país do vencedor do Prêmio PAZ FIFA, responsável direto pelo assassinato de seu líder político e religioso!

(Atenção: é claro que não posso concordar com todas as atrocidades que o regime iraniano comete contra sua própria população desde 1979 mas apenas cito os fatos como vêm ocorrendo, sem qualquer conotação política-ideológica!)

Em resposta, o vencedor do Prêmio PAZ FIFA dá uma declaração contraditória em que, ao mesmo tempo, afirma que a delegação iraniana seria muito bem-vinda ao seu país, o principal anfitrião da Copa, mas que isso não seria muito seguro. Ué ?!?!

A História das Copas do Mundo não registra desistências de qualquer seleção. Em 1950, no Brasil, algumas não aceitaram convites. Era uma época de Pós-Guerra, plenamente justificável. Alemanha e Áustria destroçadas. Escócia, sem verba. Turquia e Índia, pela distância. Entretanto, a Itália compareceu mesmo com o desastre aéreo de 1949 que vitimou todo o time do Torino, base da seleção!

A FIFA prevê multa pesada para quem desiste, além de ser omissa quanto ao motivo, e não estabelece um critério para definir substituto ou ainda se haverá algum.

O Irã foi sorteado em um grupo com Bélgica, Egito e Nova Zelândia, com jogos previstos para Los Angeles e Seattle. Transferir seus jogos para o Canadá ou México seria uma opção mas mudaria todo o planejamento e logística de seus adversários, além de jogos de outros grupos marcados para lá. Pouco provável.

O bom senso manda que a FIFA aguarde os jogos de repescagem no fim deste mês, onde haverá a participação do Iraque que vai esperar o vencedor de Bolívia x Suriname para decidir uma das vagas. Dependendo deste resultado, os Emirados Árabes Unidos poderiam se beneficiar, como a seleção mais bem qualificada nas Eliminatórias da Ásia, logo depois do Iraque.

Ou ainda, a FIFA pode deixar belgas, egípcios e neozelandeses em um grupo de somente três seleções.

Os mais radicais poderão pensar que o Irã não representa grande coisa no futebol mundial e que sua ausência não seria sentida. Pode ser mas participaram das últimas três edições da Copa. Maioria dos jogadores atua no próprio país. Cinco ou seis de destaque estão no exterior. Maior deles é o atacante Taremi que jogou na Internazionale de Milão por um bom tempo e hoje está no Olympiacos da Grécia, além do zagueiro Hosseini, do Kayserispor da Turquia. Outros atuam pelos Emirados Árabes e Arábia Saudita.

Como o Irã não confirma que não vai, o vencedor do PAZ FIFA não confirma que é seguro que o Irã vá e a FIFA ainda não se posicionou, o mundo do futebol espera com aflição o desfecho dessa crise absurda!

Ainda bem que a Venezuela não se classificou!

Gianni, Gianni... ai, ai, ai!

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