segunda-feira, 18 de maio de 2026

QUE SIGNIFICA CATIVAR?


"Tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas!"

Frase que o autor francês Antoine de Saint-Exupéry criou em "O Pequeno Príncipe", personagem épico, em 1943. Um dos maiores livros de todos os tempos já editados no mundo. Traduzido para dezenas de idiomas, ainda é um fenômeno de vendas, indicado para todas as idades, desde a formação de crianças até para treinamentos corporativos e de autoajuda para marmanjos. Antoine também desenhou as famosas aquarelas que ilustram não somente o livro mas toda uma gama de itens diversos que foram desenvolvidos pelo varejo ao longo de décadas, disponíveis para presentear àqueles que amamos!

Um marco da literatura contemporânea!

Esse sentimento de devoção sempre é demonstrado por torcidas de futebol que passam a adotar jogadores como grandes ídolos de sua História. Seja por títulos conquistados, por carisma, por identificação, por talento. Jogadores assim, cativam! Ainda mais, se forem craques!

Com apenas 1,68 m de altura, aos 16 anos, o capixaba Geovani Faria Silva já era titular da Desportiva Ferroviária, time mais popular de seu estado. O garoto mostrava um estilo clássico no meio de campo, muita habilidade, dribles curtos, lançamentos precisos, além de liderança nata. Um jeito bonito de tratar a bola. Olheiros do Vasco no estado não demoraram muito para descobri-lo e a transferência para São Januário foi rápida.

Do banco de reservas, aos 18, comemorou o título estadual de 1982, quando o Vasco venceu o Flamengo por 1 a 0. Durante a campanha, um fato curioso o marcou. Na decisão da Taça Guanabara contra o mesmo Flamengo, o sempre polêmico árbitro José Roberto Wright aceitou uma proposta da Rede Globo para esconder um microfone sob seu uniforme para registrar o que era falado durante o jogo. Rendeu muita confusão depois, sobretudo porque Geovani, titular neste jogo, parecia ser seu grande alvo: "Cala a boca, Geovani... Joga a tua bola... Cala a boca"! Pareceu uma intimidação totalmente desnecessária. O Flamengo venceu por 1 a 0. E nunca mais experiências assim ocorreram. Ainda bem! Já há problemas suficientes com o VAR, hoje em dia.

Giovane começou a fama mesmo no ano seguinte. O Sul-Americano de Seleções na Bolívia foi sua primeira vitrine para mostrar o talento de sua camisa 8, quando a competição passou a ser transmitida pela TV. A Final contra a Argentina foi vencida pelo Brasil por 3 a 2, com grande atuação e terminada com muita confusão e a tradicional briga generalizada entre os eternos rivais.

No meio do ano, o Mundial da categoria no México. A Final, no lendário Estádio Azteca, foi a mesma do Sul-Americano: Argentina. E, novamente, Geovani comandou o Brasil, marcando de pênalti, o gol do primeiro título mundial Sub20 e, de quebra, ainda foi o artilheiro da competição. Era um time que revelou gente como o lateral Jorginho (America-RJ), o volante Dunga (Internacional), o meia atacante Gilmar (Flamengo), o ponta direita Mauricinho (Comercial-SP), o atacante Bebeto (Vitória-BA) e o ponta esquerda Paulinho (Fluminense) que sofreu o pênalti decisivo. Treinados por Jair Pereira. Bons tempos em que grandes jogadores eram revelados.(*)

A partir de então, o torcedor do Vasco passou a se acostumar com seu "pequeno" craque do meio de campo. O bicampeonato carioca de 1987/88 fez o adjetivo ganhar um substantivo: "príncipe". Saint-Exupéry ajudou. Era um grande time com Roberto Dinamite, Romário, Dunga, Tita, Mauricinho...

1987: Paulo Roberto, Donato, Moroni, Dunga, Mazinho e Acácio. Mauricinho, Geovani, Tita, Roberto Dinamite e Romário!

Carlos Alberto Silva, então treinador da seleção principal do Brasil, não demorou a chamá-lo. O Brasil ainda não havia conquistado uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos e Seul 1988 era mais uma chance. Junto a Romário e Taffarel no gol, a boa performance não foi suficiente e veio novamente a Prata, assim como em 1984, perdendo, agora, a Final para a URSS. O novo treinador, Sebastião Lazaroni, ainda o chamou na conquista da Copa América, aqui no Brasil, em 1989. Na reserva, em quase nada contribuiu.

Baixinhos Cativantes

A Europa era o caminho óbvio mas o desempenho não foi o esperado, embora  torcida do italiano Bologna tivesse reconhecido seu talento. Lesões e dificuldade de adaptação contribuíram para o insucesso. Nova tentativa no alemão Karlshurer, sem muita glória. A volta ao Vasco trouxe mais dois Cariocas em 1992/93 quando surgiu o México, com o Tigres, onde tampouco emplacou. Voltou ao Vasco em 1995, sem muito brilho. Foi para o interior de SP (XV de Jaú), ABC de Natal e decidiu voltar às origens, atuando por vários times capixabas até encerrar a carreira por lá, aos 38 anos, em 2002, sem antes ser campeão pelo Serra em 1999 e de tirar a sua Desportiva da fila do Capixabão, no ano 2000.

Infelizmente, o câncer o atingiu. Ao longo dos últimos anos, sua situação clínica foi piorando. Deu tempo de Pedrinho, atual presidente do Vasco, homenageá-lo com uma placa quando foi jogar em Cariacica recentemente, no estádio Kleber Andrade. Merecia mais.

Merecia mais...

Hoje, o "Pequeno Príncipe" de São Januário decidiu cativar mais torcedores no Céu! A esta altura, já deve ter ouvido de São Pedro umas boas-vindas, parafraseando Saint-Exupéry. Algo como...

... Parabéns pelo tempo que dedicou à bola e que a fez tão importante pois só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos!


(*) Não percam ainda hoje às 17 horas. Os 26 de Ancelotti. Duvido que conheça todos ou onde jogam ou começaram a jogar! rsrsrs!

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