terça-feira, 29 de setembro de 2026

DE PARETO A AILTON E TIMBU, A LIÇÃO ENGANOSA DAS BETS

No final do século XIX, a Itália estava recém unificada e com muitos problemas para gerar receita ao país. A unidade política tardia, tal como a Alemanha, dificultou sua participação na corrida europeia para a colonização da África e da Ásia, na busca por novos mercados. As tradicionais famílias ricas dos antigos reinos da região continuaram a deter poder e capital. Foi quando o economista de origem genovesa Vilfredo Pareto calculou que 80% das riquezas do novo país estavam concentradas em somente 20% da população!

Este cálculo inspirou o engenheiro estadunidense, descendente de romenos, Joseph Juran a aplicar tal conhecimento às empresas. Por volta de 1940/41, em plena Segunda Guerra Mundial, trabalhava como consultor na General Electric e comprovou, matematicamente, que 80% do faturamento das empresas dos EUA nesta época, dependia de um grupo de apenas 20% de grandes clientes. Estava criado o ainda hoje famoso conceito 80/20, materializado nos ainda famosos Princípio de Pareto e da Curva ABC.

Em 1978, os professores estadunidenses Jeffrey Pfeffer e Gerald Salancik publicaram um livro chamado "O Controle Externo das Organizações", criando a chamada Teoria da Dependência de Recursos, onde provam que quanto maior a receita gerada por um cada vez menor número de clientes, maior será a perda de autonomia estratégica que passa a ser controlada exatamente por esses clientes.

Calma, o futebol já vai chegar!

No ano seguinte, o professor Michael Porter, de Harvard (EUA), publicou seu clássico "As Cinco Forças (de Porter, claro!)". Uma delas foi chamada de "Poder de Barganha dos Clientes", letal para reduzir a lucratividade de uma organização, pois mercados com poucos clientes, mas grandes compradores, minam as margens de fornecedores!

A Administração Moderna!

Chegou o futebol!

Você deve estar acompanhando toda essa polêmica de proibição das casas de apostas no Brasil e como investem no futebol do país. Não entrarei em mérito de política, sobretudo nesta época de eleição, ainda mais porque, sob a ótica técnica, tais empresas estão regulamentadas após um processo que demorou aproximadamente dez anos para ser finalizado.

É bom frisar que até meados dos anos 1980, os clubes de futebol tinham basicamente duas receitas: a renda dos jogos (ou torneios e amistosos) e as mensalidades de seus sócios. Ao longo do tempo, juntaram-se a premiação por desempenho nas competições, cotas de TV, licenciamento oficial de produtos vendidos, contratos de fornecimento de material esportivo, royalties de lojas oficiais franqueadas, patrocínios em placas de publicidade em estádios e centros de treinamento e no uniforme oficial de jogo: peitoral (master), mangas das camisas, costas, calções e meiões! (Esqueci de algum?)

Então, presidentes e dirigentes vêm a público afirmar, com todas as letras, que passarão a ter sérias dificuldades para administrar seus respectivos clubes ou SAF pois a receita gerada pelas BETs são fundamentais para sua saúde financeira. Assinam um nota conjunta de apoio a elas, seus patrocinadores master, lembrando obrigações contratuais e clamando por segurança jurídica.

Os mais desavisados torcedores poderiam entender tudo isso, ainda mais se os estudos de Pareto, Juran, Pfeffer, Salancik e Porter fossem efetivamente aplicados aqui mas...

Não são!

A considerar os 20 times da Série A do Brasileiro deste ano, a média de receita com bets chega a somente 8% do total. Repetindo: 8%! O volume envolvido é alto, um pouco mais de 1 bilhão de reais, mas mesmo entre os times de maior captação, a receita não ultrapassa 13%.

O que isso significa? Ora, há vida nos clubes sem Bet! Foi assim até 2016. Há impacto financeiro óbvio e a saída deste tipo de patrocínio deveria ocorrer com melhor negociação, redução gradativa, com respeito aos contratos atuais.

A saúde mental de apostadores e consequente crise familiar com dívidas e dano a patrimônios é algo a ser discutido com maturidade na sociedade civil, assim como os vícios de entorpecentes, álcool e tabaco. Deveria ter sido assim há dez anos! Ninguém previu isso? Desta forma, este autor é contra qualquer propaganda de casas de apostas, em qualquer veículo de comunicação, muito menos naming rights de estádios e de competições oficiais, um gritante conflito de interesses, mas não contra sua existência, bem regulamentada e fiscalizada, geradora de impostos, exclusivamente voltados para a saúde e bem estar de cidadãos que desenvolvam dependência psíquica. Muito sonho, né?

Os cassinos foram proibidos no Brasil em 1946. Em 1984, a escola de samba carioca Império da Tijuca escolheu esse enredo para o Carnaval. O samba de autoria de Ailton e Timbu se chamava "9.215", o número da lei decretada pelo governo. Esse era o refrão:

"Corrida de cavalos, pode apostar

Loto e Loteria existem em todo o lugar

O palpite é Borboleta

No Bicho eu vou jogar!"

Ailton (e Timbu) transformam!

Que a moral e os bons costumes não sejam meros elementos de demagogia!

Chega de "tudo acaba em samba", apesar de seu "poder transformador"!

Viva o Futebol!

9 comentários:

  1. Muito boa materia Osmar - agora o Bap se lamentando é ílario ne kkk

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  2. Muito boa materia, grande Osmar - agora ver o Bap se lamentar sobre as contas é ilário kkk abraços

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  3. O choro sempre é livre. O problema é quando a matemática é envolvida. Aí vemos como faltam argumentos que possam ser debatidos.

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