segunda-feira, 10 de março de 2025

O CAMAROTE


O Brasil tem um grande problema há mais de 500 anos: Educação!

E no sentido amplo. Pedagogia, estrutura, investimento, profissionais. Jovens de norte a sul do país precisam possuir uma única virtude, estimulada, como se espera, pelos pais. Vontade!

E mesmo quando há vontade, as dificuldades são tantas que, ao enxergar caminhos mais fáceis de sucesso, a tomada de decisão pode encontrar armadilhas de destino que o futuro tratará de desvendar, invariavelmente, em cenários obscuros.

Ao combinar tal situação com uma personalidade egocêntrica ou narcisista, aliada a ganhos financeiros muito acima do imaginável (mesmo sem juízo de valor sobre eles), o resultado é uma perigosa e porque não dizer, mentirosa posição social, isto é, como tal indivíduo pensa que seja e pior ainda, como pensa que a sociedade o percebe. Aquele velho clichê; acima do bem e do mal.

Infelizmente, vivemos um tempo em que é muito oportuno emitir pontos de vista protegidos por mídias sociais que podem nos dar uma falsa impressão de admiração e idolatria, baseados na quantidade de milhares ou milhões de seguidores. Ao mesmo tempo, é muito fácil identificar aqueles que não gostam e não conseguem lidar com críticas, mesmo quando os fatos são notórios e sempre ocasionados por suas próprias ações.

O processo continua. O tempo passa. A admiração e a idolatria iniciais começam a se transformar em decepção. A divisão entre quem ainda gosta e quem passa a não gostar se acirra. Os primeiros se agarram em esperança e boa índole mas passam a ser um grupo cada vez menor e específico. Os outros começam a acordar para uma realidade brutal e se lembram de alguém, que alguma vez, de alguma forma, por conta de algo ocorrido, fez algum alerta de futuro sombrio.

Por mais que se possa deduzir tal futuro, por conta do passado e presente, sempre há uma possibilidade de correção. Um arrependimento. Uma retomada. Um recomeço. Não importam idade e momento!

Ou não!

Deixo aqui meu pedido de desculpas se fui um pouco prolixo e abstrato. As ideias acima expostas abrangem a minha opinião. Você deve ter a sua mas mesmo que seja diametralmente oposta, já parou para pensar no que deve estar passando na cabeça dos torcedores do Santos que perdeu ontem, a semifinal do campeonato paulista para o Corinthians?

Creio que nem mesmo um camarote de carnaval super animado durante toda a noite e com bufê exclusivo deva reconfortá-los!

domingo, 9 de março de 2025

Os Doze de Uma Só: 4 - CARLITOS



Nome completo: ALBERTO ZOLIM FILHO
Apelido ou Mais Conhecido como: CARLITOS
Nascimento:27/11/1921 - Porto Alegre RS
Falecimento: 30/10/2001 - Porto Alegre RS
Uma Só Camisa: INTERNACIONAL RS
Período: 1938 a 1951 - 13 anos
Posição: Ponta-Esquerda (canhoto)
386 jogos: 261 vitórias, 69 empates
Gols: 326
Seleção Brasileira: não

"Quando fui treinar lá (no Inter), O Carlitos Mauro (colega de time) do Tristezense (time amador onde jogavam) estava no banco ao meu lado e o técnico, de dentro do campo, chamou. CARLITOS! Como eu era Carlinhos, pensei que não fosse comigo mas o Carlitos não respondeu. Então gritei: EU? O técnico: Você é o Carlitos? Sim! Você joga de que? Olhei pro campo e vi craques como Risada, Ademir e Brandão. Faltava uma única posição. Ponta-Esquerda, gritei! E entrei!"

E só saiu quando se aposentou quinze anos depois! Essa passagem ocorreu em 1936, ao iniciar no time de amadores do SC Internacional de Porto Alegre! Tinha só 15 anos. Aos 17, já era titular do time principal.

Carlitos é o maior artilheiro do Internacional em todos os tempos! E ainda o maior do GreNal: 42 gols em 62 jogos! Absoluto! Um deles, logo após uma cirurgia no joelho, praticamente sem tempo de recuperação. E nunca perdeu um pênalti.

Seus pais lhe puseram o apelido de Carlinhos por um motivo surreal! O escrevente do cartório que registrou seu nascimento esqueceu de acrescentar o Carlos antes do Alberto. E o pior: o pai não percebeu! Como forma de compensar os equívocos... ficou Carlinhos! E a mudança para Carlitos, acima explicada. 


Foi um dos grandes protagonistas do famoso time colorado que ganhou a alcunha de "Rolo Compressor" nos Anos 1940. Nena, Alpheu, Ávila, Ruy, Adãozinho e o fantástico Tesourinha. Esse time foi Hexacampeão Gaúcho de 1940 a 45, Bi em 47 e 48 e novamente em 50. Havia também o campeonato citadino de Porto Alegre em que o Rolo Compressor também foi Hexa de 1940 a 45, Bi em 47 e 48 e novamente Bi em 50 e 51. Carlitos foi o artilheiro do estado em 1939, 42, 47 e 48. Em 1939, o Inter derrotou o Sokol por incríveis 13x1; 7 de Carlitos! Fazia gols com chutes potentes e oportunismo na área. Acreditava em todos os lances! Driblador rápido e insinuante.




A fama desses jogadores chegou a São Paulo e Rio. Palmeiras, Fluminense e Vasco fizeram de tudo para contratá-los! Tesourinha, um dos craques da História do futebol brasileiro, acabou indo mesmo para São Januário onde foi campeão carioca em 1949 e 50. Nena, para a Portuguesa. Carlitos teve proposta mas jamais aceitou qualquer possibilidade de deixar o Inter!


Em 1945, seu gol mais famoso! O gol do "Plano Inclinado"! Era um jogo contra o Cruzeiro de Porto Alegre, que vencia por 3x2, no antigo Estádio dos Eucaliptos. Tesourinha fez um lançamento alto para a área adversária. O zagueiro cortou mal, para trás, encobrindo seu goleiro. A bola sobraria limpa para Carlitos que acabou correndo mais que a bola que acabou subindo mais do que previu. Carlitos parou quase na linha do gol, viu a bola descer atrás de si e jogou seu corpo para trás, fazendo um movimento elástico impressionante. A bola bateu no seu rosto e morreu mansamente no fundo do gol! Épico! O jogo terminou empatado em 4x4 e o gol entrou para a História!


Ainda serviu a Seleção Gaúcha por 11 anos, entre 1939 e 50. Em 20 jogos, fez 17 gols! Os campeonatos brasileiros de seleções eram bem populares mas Carlitos não conquistou nenhum.

Decidiu encerrar a carreira aos 30 anos. Dizia que estava cansado. Seus joelhos doíam e, enquanto jogava, também trabalhava na Companhia Geral de Acessórios, do governo do Rio Grande do Sul, onde se aposentou em 1971. Era tão apaixonado pelo Inter que colocou o nome de seus três filhos com as iniciais do clube: Ivan, Iran e Irany!

Quando o Inter se despediu dos Eucaliptos em 1969, lá estava com Tesourinha  para a cerimônia de retirada das redes das traves. O Beira-Rio estava pronto!

Aqui abaixo, ao lado da famosa foto do "Plano Inclinado" e em seguida, presente em um treino da equipe principal nos anos 1990.



Carlitos faleceu em 2001, antes de completar 80 anos. Símbolo de amor e fidelidade ao Internacional!

Tomara que haja pão de queijo voltando para Minas...


sábado, 8 de março de 2025

AS YANKEES JÁ CHEGARAM

8 de Março! Dia Internacional da Mulher!

Dia de celebrar conquistas que, infelizmente, demoraram muito para chegar. E elas não param. Continuam a ocorrer, felizmente. Um pouco ali, mais aqui e acolá. Uma batalha contínua em todos os setores da sociedade!

Inclusive no futebol.

As competições de futebol feminino estão atualmente espalhadas por todo o mundo e, desde 1991, com Copa do Mundo FIFA e nos Jogos Olímpicos, desde 1996.

O grande mistério que envolve o universo do futebol feminino é entender os motivos pelos quais a seleção mais vencedora entre todas até aqui não está na América do Sul ou na Europa, como entre os homens. São os EUA! Tetracampeões mundiais em oito copas disputadas e Tetra de Ouro Olímpicas, também em oito jogadas! Nem de longe, sua seleção masculina possui qualquer chance de comparação!

Estive pesquisando um pouco sobre isso. Alguma coisa já sabia, outras não tinha a menor ideia, sobretudo em relação aos números que fazem dos EUA, o país do futebol feminino!

Para mencionar tais números, é bom compará-los com os do Brasil, por exemplo, outrora o país do futebol dos marmanjos. Cerca de 70% das praticantes de futebol no mundo estão nos EUA. Calcula-se algo em torno de dez milhões de jogadoras, sendo um milhão e meio de meninas abaixo dos dezoito anos. No Brasil, esse número não chega a míseros três mil. Ao falar sobre técnicos cadastrados e trabalhando, outra goleada: 72000 contra 1300. 

Essa predileção do público feminino pelo futebol nos EUA tem uma origem parecida com o início da paixão pelo público masculino no Brasil. Guardadas as devidas proporções de tempo e cultura local, na virada do século XIX para o XX, o esporte mais popular do Rio de Janeiro, por exemplo, era o remo, praticado na Baía de Guanabara. Os remadores eram idolatrados por sua força física e corpos perfeitos. Era um "esporte de homem". Quando o futebol começou de vez, junto ao novo século, seus praticantes eram considerados "pouco másculos" pois qualquer um podia jogar: alto, baixo, magro, gordo, feio, bonito e não necessariamente, forte!

Algo semelhante é considerado pela professora de Ciência do Esporte Eileen Welp, da Universidade do Estado de Wisconsin, EUA. Sua ideia passa, primeiro, pelo fato de que o esporte das multidões de seu país é o football, o da bola oval! Jogado em grandes estádios, a brutalidade dá o tom das partidas, algo que, definitivamente, não combina com o universo feminino. Os estadunidenses sempre consideraram o soccer um esporte de pouca masculinidade pois, pra eles, seu contato físico não pode ser comparado ao football, hóquei no gelo e mesmo com o basquete, outros esportes coletivos de grande interesse por lá. O beisebol é um caso à parte (se você entende este jogo, por favor, me explique qualquer dia desses...).

Além disso, a luta pela igualdade de gênero sempre esteve presente em vários fatos políticos e culturais nos EUA, especialmente no século XX. Desta forma, em 1972, o presidente Richard Nixon sancionou uma lei chamada Título IX que proibia discriminação com base em sexo em qualquer âmbito, inicialmente, na educação. Um pouco antes do escândalo de "Watergate" que o fez renunciar! Como as escolas estadunidenses sempre enfatizaram a prática de esportes (e continuam assim), o soccer, até então "patinho feio", começou a dividir a preferência das meninas com o basquete e o vôlei, modalidades também coletivas, pois havia fatores muito favoráveis: campo grande, mais gente jogando e no banco de reservas, além de que altas, baixas, feias, bonitas, magras e gordas podiam jogar! Menos brutalidade e mais técnica e habilidade em um esporte mais democrático!

Neste mesmo ano de 1972, cerca de 700 meninas jogavam futebol nas escolas e 300 nas universidades. Vinte anos depois, já eram 120 mil nas escolas e em 2023, 400 mil. Por sua vez, dez anos depois, as universidades possuíam 2000 atletas femininas em 80 times. Hoje são 28 mil atletas em mais de mil times! Em qualquer parque, praça ou espaço comunitário de qualquer cidade estadunidense, se vê meninos lançando bolas ovais e meninas chutando bolas redondas! E veja que nem mencionei as equipes profissionais que, ao selecionarem jogadoras universitárias, estão criando um fenômeno único no país, fazendo com que comecem a jogar profissionalmente antes mesmo de se graduarem em qualquer curso, o que é praticamente impossível de ocorrer nos outros esportes.

Junte-se políticas e culturas com o sucesso de sua seleção no campo e passa a não ser difícil concluir que o futebol feminino dos EUA vai continuar liderando a modalidade  no mundo por um bom tempo, fazendo surgir novas craques idolatradas e campeoníssimas como Mia Hamm (a Pelé das mulheres), Abby Wambach, Megan Rapinoe e a goleira Hope Solo, mesmo com seleções europeias crescendo, assim como o vizinho Canadá, o Japão, que foi campeão do mundo em 2011, e o Brasil da eterna Marta, de quem sempre se espera uma evolução maior! 

Mia Hamm, a Pelé das Mulheres!
Chegando em terras tupiniquins, o futebol feminino foi proibido no Brasil entre 1941 e 1979, através de lei federal, assinada por Getúlio Vargas, em pleno Estado Novo. E ainda houve um hiato de tempo, até a modalidade ser regulamentada em 1983! Não pense que esse atraso foi somente por aqui. A Inglaterra, atual vice-campeã mundial, também proibiu as mulheres de jogarem entre 1921 e 1971, por 50 anos, portanto! A Alemanha, que revelou a grande atacante Birgit Prinz, também não permitiu entre 1955 e 1970! A luta contra o preconceito é árdua, mundo afora!

Conheço muita gente que não liga para futebol feminino. Respeito mas lamento. Estou falando de Brasil, claro, onde o preconceito ainda é forte. As redes de TV, sites e mídias sociais vêm dando cada vez mais destaque, com transmissões ao vivo, ao campeonato brasileiro, alguns estaduais, além das competições continentais e mundiais como Copa do Mundo e Jogos Olímpicos! (Como bons brasileiros, aí todos torcem!) É uma nova realidade que precisa fazer com que formemos mais jogadoras nas escolas, nas universidades, nos clubes com o objetivo de vencer o preconceito e começar a torcer mesmo para uma nova seleção brasileira de futebol (apesar da CBF).

As Yankees já chegaram! Há muito tempo! 

Que o legado de Sissi, Formiga, Marta e Cristiane não seja em vão!

Obrigado, Marta!

Parabéns a todas as mulheres! Não há vida sem vocês!


Fontes: BBC, por Alessandra Correa (Hoje Pernambuco) e Globo Repórter, 2023!

quarta-feira, 5 de março de 2025

A PLACA DO GOL E OUTRAS HISTÓRIAS

Dentre os mil duzentos e tantos gols que Pelé marcou em sua carreira, alguns, ou porque não dizer muitos, foram icônicos. Entraram para a História.

Ele já havia feito golaços com 17 anos em plena Copa do Mundo, em 1958, contra Gales, França e Suécia, fundamentais para que o Brasil conquistasse seu primeiro título mundial.

No ano seguinte, pelo Campeonato Paulista, contra o Juventus na Rua Javari, fez o antológico "Gol dos 5 Chapéus". O Santos vencia por 3x0 com facilidade e dois gols de Pelé, mas os torcedores do "moleque travesso", inexplicavelmente, insistiam em xingá-lo, provocando-o, inclusive com insultos racistas. Como o estádio é pequeno e o público fica bem próximo ao gramado, Pelé escutou muito bem a série de impropérios! Já no fim do jogo, recebeu um lançamento de Dorval, entrando na área juventina e aplicou um chapéu sobre o primeiro defensor. Sem deixar a bola cair no chão, veio o segundo e mais um chapéu. O terceiro e quarto também receberam os seus. Então, veio o goleiro Mão-de-Onça. Também teve chapéu pra ele e ainda sem deixar a bola cair, cabeceou mansamente para finalizar a goleada. 

Ao comemorar o gol sozinho, Pelé criou, então, sua marca registrada do soco no ar, quando, aos berros de raiva, homenageou as progenitoras dos incautos e ingratos torcedores juventinos! Épico! Esse gol foi recriado em vídeo com computação gráfica para o documentário "Pelé Eterno" (2004), de Aníbal Massaini. Não dá pra dizer que tenha ficado bom mas foi uma tentativa válida para registrar um extraordinário momento de um gênio!

Entretanto Pelé ainda guardava aquele que, para muitos, foi o mais bonito gol de sua carreira, completando 64 anos no dia de hoje.

Torneio Rio-São Paulo. Maracanã. 40 mil presentes. No fim do primeiro tempo, o Santos vencia o Fluminense por 1x0, gol de Pelé. O zagueiro santista Dalmo fez um lançamento para Pelé que dominou a bola na intermediária ofensiva. Então, ele driblou Paulinho "Ladrão" Omena, entrou na área e em curto espaço, passou por Edmilson, Altair, Jair Marinho e Pinheiro. Quando Castilho saiu para tentar fechar seu ângulo, Pelé desferiu um petardo no contrapé do zagueiro Clóvis, que já estava atrás do goleiro, como um último recurso para evitar a obra-prima! Não conseguiu! 


Aqui, o chute final, por outro ângulo!

O primeiro tempo logo terminou e a torcida do Fluminense não teve outro gesto senão o de aplaudir! Como registrou Mário Filho em sua crônica no Jornal dos Sports:

"Era um gol visto do princípio ao fim, como nunca se vira outro. Então aconteceu uma coisa inédita. A multidão não se levantou. Continuou sentada. Mas prorrompeu em palmas. Não houve um só espectador que não batesse palmas. Era uma ovação de Teatro Municipal. As palmas não paravam aumentando de intensidade. Batia-se palmas olhando para o campo. Para Pelé! Ele ouviu as palmas e olhou para a arquibancada do Maracanã. Depois, levantou o braço e acenou com a mão, agradecendo. Recebia os abraços de Coutinho, Zito, Pepe, Dorval e continuava a escutar palmas. Correu para o meio do campo, acenando com a multidão levantada, agradecendo. Era aquela homenagem mais bela que recebera!"

Mário continua: "As palmas só cessaram quando Waldo deu a nova saída. Iam recomeçar logo depois, pois acabava o primeiro tempo e Pelé saía de campo. A diferença é que agora a multidão se pôs de pé para aplaudir! Quando Pelé desapareceu no túnel, ninguém ficou quieto. A vontade que todo mundo tinha era de se abrir, de compartilhar com alguém a alegria do gol. Formavam-se grupos. Gente que não se conhecia tornava-se íntima pelo milagre do gol de Pelé!"

Então com 25 anos, repórter de "O Esporte" e presente no Maracanã, o palmeirense roxo Joelmir Beting declarou que o gol merecia uma placa! Dito e feito. Ele mesmo pagou do próprio bolso, sem jamais ter sido reembolsado pelo seu empregador. A placa está no Hall Social de entrada do estádio.

Desde então, gols bonitos passaram a receber a alcunha de "Gol de Placa"!

Ah! Pepe fez mais um. Jaburu descontou para o Flu e o Santos venceu por 3x1!


Fotos: site oficial do Santos FC e UOL, por Milton Neves!

segunda-feira, 3 de março de 2025

ORFEU É DO OSCAR! É DO CARNAVAL! É DO FUTEBOL!

Eu estou vibrando sim! Ganhar Oscar é importante para o desenvolvimento de nossa cultura! 

Mas será que foi mesmo a primeira vez?

Resposta: depende do ponto-de-vista!

Oficialmente, o filme "Orfeu Negro" (ou "Orfeu do Carnaval") representou a França, do diretor Marcel Camus, na festa de entrega de 1960 do mais importante prêmio do cinema mundial. E ganhou como melhor filme estrangeiro.

Também ganhou na mesma categoria, o Globo de Ouro e a Palma de Ouro no Festival de Cannes!

Entretanto, todos os atores são... brasileiros, exceto a "mocinha", a estadunidense Marpessa Dawn! Falado em português e baseado em peça teatral de Vinicius de Moraes ("Orfeu da Conceição") que também assina a trilha sonora com Tom Jobim. A canção-tema, "Manhã de Carnaval", é uma obra-prima de Luiz Bonfá e Antonio Maria. E mais: o filme foi todo rodado no Rio de Janeiro e fundamental para a divulgação mundial de um novo estilo musical genuinamente brasileiro que surgia: a bossa nova!

Mas afinal, o que isso tem a ver com futebol?

O protagonista: Breno Mello! Esse aqui do cartaz oficial do filme!

Durante as gravações em 1959, Breno era jogador do Fluminense! Isso mesmo! Olha aí embaixo! Em pé; Clóvis, Edmilson, Castilho, Jair Marinho, Altair e Pinheiro. Agachados; Telê Santana, Paulinho Omena, Waldo, Breno e Escurinho!

Gaúcho de Porte Alegre, nascido em 1931, começou a jogar no São José, o popular "Zequinha". Era meia-direita ou esquerda! Chamou a atenção pela habilidade e como bom finalizador. Acabou contratado pelo extinto Renner, onde foi destaque nos títulos estadual gaúcho e citadino da capital, ambos em 1954, acabando com a hegemonia da dupla Gre-Nal! Deu zebra! Aqui abaixo, é o segundo agachado da esquerda para a direita. Vale destacar também, o segundo agachado da direita para esquerda: Ênio Andrade, que depois se notabilizou como técnico campeão brasileiro pelo Inter, Grêmio e Coritiba!

Em 1957, teve passagem rápida pelo Corinthians e depois pelo Santos, quando atuou no último jogo de Pelé como amador. O Peixe venceu o Rio Branco de Paranaguá-PR, fora de casa, por 3x2 e Breno fez um dos gols.

Chegou ao Fluminense em 1958. Não era titular absoluto, revezava como meia com Maurinho. Em 1959, foi titular no Torneio Rio-SP, da foto acima. Estava inscrito para disputar o Campeonato Carioca na sequência mas...

O diretor Camus procurava um ator brasileiro para o papel principal do Orfeu. Breno foi descoberto jogando uma "pelada" na praia de Copacabana e após um jogo do Fluminense, foi abordado pelo advogado do diretor, Jose Leventhal, quando chegava em casa. Ele se encaixava perfeitamente nos perfis físico e étnico desejados. Venceu cerca de 300 candidatos, sem nunca ter tido qualquer experiência em cinema e, claro, decidiu pendurar as chuteiras aos 28 anos!

Aqui com o Presidente JK, Marpessa e Vinicius de Moraes, de óculos escuros!

Depois do Orfeu, Breno ainda fez mais alguns filmes, o mais famoso, "Negrinho do Pastoreio", de 1973, quando contracenou com Grande Otelo.

Ao abandonar as telas após seu último filme em 1988, viveu humildemente em Florianópolis, Novo Hamburgo e Porto Alegre, onde faleceu, vítima de infarto em 2008, deixando 5 filhos, 12 netos e 5 bisnetos.

Então...

Ganhamos um Oscar ou não?

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Os Doze de Uma Só: 3 - KAFUNGA

Nome: OTÁVIO LEITE BASTOS

Apelido ou mais conhecido como: KAFUNGA

Nascimento: 07/08/1914 - Niterói RJ

Falecimento: 17/11/1991 - Belo Horizonte MG

Uma Só Camisa: ATLÉTICO MG

Período: 1935 a 1954 - 19 anos

Posição: Goleiro

335 (ou 504) jogos: 208 vitórias (ou mais), 48 empates (ou mais)

Seleção Brasileira: Não (ou quase).


"Todos estavam na mesma emoção. É indescritível, mesmo depois de tantos anos. Eu sempre fui muito orgulhosa do meu avô. Todo mundo gostava muito dele no futebol e na TV. Foi uma honra muito grande eles reconhecerem isso, em nome do Atlético e do time de 1937. É muito gratificante ver as famílias de todos. Tinha pessoas chorando também. Pensei que os campeões estavam de fato entre nós!"

Depoimento de Marcia Bastos, neta de Kafunga, em evento na nova arena MRV, em setembro de 2023, para celebrar a oficialização, pela CBF, do Torneio dos Campeões de 1937, vencido pelo Atlético, como um campeonato brasileiro.

Neste ano, Kafunga, aos 23 anos incompletos, já era titular absoluto no gol do Galo. O Torneio também contou com Fluminense, Portuguesa-SP e Rio Branco de Vitória-ES, que havia eliminado o Fluminense de Niterói e a Liga da Marinha. Quatro campeões regionais de 1936 fizeram, então, a fase final e se enfrentaram em turno e returno. Com 4 vitórias, 1 empate e 1 derrota, os mineiros saíram campeões.


Foi apenas o segundo título de mais 9 que Kafunga conquistaria com a camisa de goleiro do Clube Atlético Mineiro, ao longo de quase 20 anos!

Nascido na antiga capital do antigo Estado do Rio de Janeiro, Niterói, Kafunga chamou atenção de olheiros de Minas ao se destacar em torneios amadores de sua cidade natal. O jovem Otávio já possuía seu famoso apelido, dado por seu avô, em referência à largura de suas narinas. 

Kafunga não detinha grande técnica mas era arrojado, corajoso, ágil e de grande impulsão! Fez defesas surpreendentes e muitas mirabolantes como uma de "bicicleta" contra a Ponte Preta! Com muito carisma, desenvolveu grande amor ao clube, conquistando a torcida com declarações apaixonadas!



Esbanjava bom humor! Sempre sorridente, dizia que o Atlético jamais havia perdido por culpa dele! Os jogadores concordavam, tamanho o respeito e admiração que tinham. Kafunga foi o melhor goleiro de Minas Gerais enquanto atuou. Chegou ser convocado para a seleção brasileira que seria representada por uma seleção mineira em torneio na Bolívia, nos anos 1940, mas o evento acabou cancelado.

  

O Atlético foi um dos primeiros times brasileiros a excursionar pela Europa. O primeiro de Minas Gerais. Em 1950. Mesmo com a derrota na Copa de Mundo deste ano, o futebol brasileiro alcançou grande prestígio por lá. O Galo teve excelente retrospecto jogando na França, Alemanha, Áustria, Bélgica e Luxemburgo, enfrentando equipes tradicionais destes países, fechando com 6 vitórias, 2 empates e 2 derrotas. Kafunga, aos 36 anos, foi o grande destaque. Como os jogos aconteceram em novembro e dezembro, inverno europeu, e a campanha foi vitoriosa, imprensa mineira criou logo o slogan de "Campeão do Gelo"! A volta dos atleticanos foi uma grande festa, com desfile em carro aberto por Belo Horizonte!



Após se aposentar aos 40 anos, Kafunga ainda foi técnico do Atlético em 1961. Teve bom desempenho mas sem conquistas. Alcançaria mais fama e sucesso em outras duas frentes.

Levado para política por Juscelino Kubistchek, Kafunga incorporou seu apelido ao nome de batismo e foi eleito vereador em Belo Horizonte, sem precisar fazer qualquer campanha. A torcida o elegeu! Depois, trabalhou em vários cargos na prefeitura e no próprio clube.

Seu sucesso foi realmente estrondoso como comentarista de futebol. Nas rádios, jornais, televisão! Recordes de audiência. Não tanto para a torcida do Cruzeiro... rsrsrs. Ao contrário de Preguinho, como vc leu aqui, Kafunga não tinha a menor cerimônia em enaltecer o Galo em detrimento de seus rivais. Ao mesmo tempo, criou bordões inesquecíveis, engraçados, que são lembrados e usados até hoje:

  • Jogador deu uma "despingolada": saiu rapidamente!
  • O "lesco-lesco" do time foi irritante: falta de vontade de jogar!
  • Jogador "destramelado": fala muito e joga pouco!
  • "Vapt-vupt": rapidinho! (Alô Prof. Raimundo!)
  • Não tem "coré-coré"! Gol "Barra Limpa"!: Gol Legal!

Passou tanto tempo no ambiente esportivo dos mineiros que Kafunga foi incorporado àquela expressão que se diz quando se quer qualificar algo ou alguém muito antigo: "Uai, sô! Esse trem é de mil novecentos e Kafunga!"

Ídolo!

Não teve Tutu, nem couve! Mas será que no próximo haverá chimarrão e churrasco?


terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

A INCRÍVEL HISTÓRIA DE COMO UM ESPERTALHÃO INGLÊS AJUDOU A AMÉRICA DO SUL A CRIAR O GOL OLÍMPICO!

Sam Chedzgoy jogava no Everton de Liverpool, Inglaterra.

Em 1924, a "International Board", fundada em 1883 no mesmo país para regulamentar as regras do futebol, tomou uma decisão importante. A partir daquele momento, passou a ser possível que um time marcasse um gol através da cobrança de um escanteio. Entretanto, não deixou bem claro como isso seria definido.

Neste mesmo ano, o Everton estava em campo e teve um primeiro corner kick a seu favor. O esperto Sam pegou a bola e da linha lateral do campo, junto à linha de fundo, saiu driblando os defensores adversários que, atônitos, não impediram a marcação do gol! Ninguém lhe disse que era proibido dar somente um toque na bola para bater o tal corner kick! "Gooooool legal", como diria Mario Vianna (com dois enes)!

A confusão que Sam criou foi tanta que a International Board teve que se reunir novamente para deliberar sobre aquela nova regra. Não há registros de que o Everton ou mesmo o Sam tenham sofrido algum tipo de penalidade mas o fato é que a esperteza do atacante ajudou a definir de uma vez por todas que um escanteio deveria ser cobrado com um toque só. E ainda estabeleceu aquele semiarco onde a bola deve estar. Como é até hoje...

Então, gols como o do Sam não poderiam mais acontecer, exceto se um chute fosse dado do tal semiarco diretamente à meta adversária. Pouco ou nenhum ângulo? Muito defensor na área? Muito distante? 

Mesmo que o SIM seja a resposta mais adequada para estas perguntas, o argentino Cesáreo Onzari, que atuava pelo Huracán, não tomou conhecimento de tais, digamos assim, dificuldades. Em uma partida amistosa entre Argentina e Uruguai, neste mesmo ano de 1924, em 2 de outubro, Onzari foi bater um escanteio. Os 37 mil torcedores que se acotovelavam do antigo Estádio Barracas, em Buenos Aires, viram a bola entrar diretamente no gol uruguaio.



Delírio e espanto! Um feito espetacular! Como diria um professor meu no Colégio Santo Inácio, "A Física é linda, linda, linda!"

O jogo tinha um forte apelo esportivo pois a seleção uruguaia havia acabado de conquistar a primeira de suas duas medalhas de ouro no futebol dos Jogos Olímpicos recém finalizados em Paris (ganhariam também em Amsterdam, 1928). E como maneira de provocar os rivais, o argentinos começaram a dizer que o gol de Onzari foi... Olímpico!

Há uma versão brasileira (e carioca). Quatro anos depois, em 1928, portanto, o Vasco inaugurava os refletores do Estádio de São Januário em amistoso contra o uruguaio Montevideo Wanderers. Os cruzmaltinos venceram o jogo por 1x0, gol do ponta Santana, batendo um escanteio direto para o gol! Da mesma forma, batizaram o gol de olímpico na mesma ironia aos uruguaios, campeões olímpicos. Como as comunicações eram precárias nesta época e as informações demoravam a chegar, não há como assegurar que os cariocas sabiam que o "batismo" do gol já havia acontecido! 

Assim, mesmo que se prefira acreditar no inocente Santana, é correto afirmar que o gol olímpico, seguramente, surgiu na América do Sul!

Pulo rápido no tempo!

Em sua polêmica volta ao Santos, Neymar vai tentando recuperar sua forma e no fim de semana passado, ajudou seu time a derrotar a Inter de Limeira, marcando um gol olímpico pelo Paulista! Foi o primeiro de sua carreira. Outros por aqui e pelo mundo afora já fizeram bem mais.

No Brasil, além de Santana, Paulo Cézar Caju, Éder, Nelinho, Marcelinho Carioca, Roberto Carlos já deixaram suas marcas. Pelé também fez um. Neto fez 6 mas o artilheiro é o meia sérvio Petkovic. Jogando pelo Flamengo, fez 4. Pelo Fluminense, mais 2 e mais um pelo Vitória-BA. Ao incluir um outro marcado quando ainda jogava pelo Estrela Vermelha em seu país natal, totalizou 8! Ele enche a boca pra dizer que é o maior artilheiro de gols olímpicos da História mas se esquece ou não sabe que o italiano Massimo Palanca, artilheiro e ídolo do Catanzaro nos anos 1980/90, fez 13.


E você, amigo leitor, saberá agora quem é realmente o maior artilheiro de gols olímpicos da História do Futebol!


Trata-se do turco Sukru Gulesin! Ídolo do Besiktas que também jogou nos italianos Palermo e Lazio, além da seleção turca nos anos 1940/50!

São 32!

Tá no Guiness!