segunda-feira, 21 de abril de 2025

SAN FRANCISCO DE ALMAGRO

O falecimento do Papa Francisco tem significado especial para los cuervos, como são conhecidos os torcedores do San Lorenzo, em Buenos Aires, Argentina!

Los Cuervos e seu santo amuleto!
O garoto Jorge Mario costumava assistir aos jogos de basquete do clube em que seu pai, Bergoglio, atuava. Nascido ali no bairro de Flores, sua paixão pelo San Lorenzo ainda se intensificou no título nacional do futebol em 1946, quando tinha 10 anos.

Mesmo seguindo sua vocação religiosa, jamais deixou de acompanhar seu time. Já como arcebispo de Buenos Aires, costumava ir ao vestiário do Estádio Nuevo Gasometro para abençoar os jogadores antes das partidas. Nos anos 1990, o San Lorenzo ia mal das pernas e o clube contratou o famoso técnico Alfio Basile, que foi da seleção argentina, para tentar reverter a péssima campanha da ocasião. Quando Basile percebeu a presença do sacerdote, tratou de logo de expulsá-lo dali e soltou uma declaração famosa, confirmada pelo então presidente do clube, Fernando Miele: "Eu fui contratado justamente porque o San Lorenzo não ganha de ninguém! Pode mandar esse azarado embora!" O cardeal obedeceu, mas nos dois anos em que Basile esteve à frente do time, o San Lorenzo não conquistou título algum! Praga divina! 

Mesmo após a saída de Basile, Bergoglio continuou sócio-proprietário e chegou  a realizar missa comemorativa do centenário do clube, em 2008.

Sócio Divino
As iniciais do nome oficial do San Lorenzo sempre foram motivo de gozação por parte dos torcedores dos outros times da cidade. CASLA (Clube Atlético San Lorenzo de Almagro) virou Clube Atlético Sem Libertadores da América, ou seja, era o único dos chamados clubes de grande torcida que não havia conquistado a competição de clubes mais importante do continente.

Então, em março de 2013, o Cardeal Jorge Mario Bergoglio voltava à cena! Era o novo Papa da Igreja Católica! O Papa Francisco!

Ao final deste mesmo ano, o San Lorenzo foi campeão argentino, conquistando, assim, o direito de disputar a Libertadores. E aí, as piadinhas das letras do seu nome chegaram ao fim: Campeão de 2014, quando derrotaram o Nacional do Paraguai, em final inédita! 

Sem mais gozações!
O novo amuleto da sorte dos cuervos não se restringiu aos limites do Nuevo Gasometro! Emprestaram-no à seleção argentina! Após 28 anos, ganharam um título oficial, a Copa América de 2021. Não parou por aí. Um dia antes da Final da Copa do Mundo do Catar 2022, Francisco abençoou a camisa albiceleste. Creio que todos se lembram do milagre que o goleiro maluco "Dibu" Martinez fez no último minuto da prorrogação contra a França. Na disputa de pênaltis, ele operou mais milagre e a Argentina foi campeã mundial depois de 36 anos de espera. De quebra, outra Copa América no ano passado!

Benção Poderosa!
Hoje, Bergoglio descansou!

São Pedro, lá de cima, o acolherá com amor!

E que não escolha um hermano tão cedo como sucessor!

E ainda que perdoe a piadinha infame que este autor acaba de fazer...


Obs: Após matérias CNN e UOL.

quinta-feira, 17 de abril de 2025

EM OUTRO PATAMAR

Os problemas relacionados à Educação se manifestam com maior ou menor intensidade em qualquer lugar do mundo, conforme o tema foi tratado ao longo do tempo neste e naquele país ou região.

Já escrevi aqui que o Brasil tem esse problema crônico há mais de 500 anos!

O futebol, que já virou um grande negócio há algumas décadas, também está inserido nesta questão pois a maioria dos jogadores profissionais não tem acesso a uma boa formação acadêmica e muitos, muitos mesmo, por motivos sabidos, sobretudo em países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, não têm "berço", infelizmente!

As apostas em esporte existem há muito tempo. Londres e várias cidades nos Estados Unidos, principalmente, já abrigavam consultorias, corretoras, bookmakers e afins. Lutas, em especial o boxe, sempre estiveram no olho do furacão dessa galera. Não dá para esquecer a derrota surpreendente de Mike Tyson para o inexpressivo James "Buster" Douglas, em 1990. Tyson, fenômeno do esporte, já tinha garantido uma bolsa de seis milhões de dólares. Douglas, um milhão e trezentos mil. A diferença é que o azarão fazia ganhar 42 vezes mais que o valor apostado em sua vitória. Nada mal, não?

Coincidência ou não, o boxe iniciou um processo de desmassificação. Se a palavra não existe, inventei agora! rsrs! Carnificinas como Vale-Tudo, MMA e UFC ganharam espaço e audiência. Após os nocautes, vale refletir se os lutadores estão mesmo ganhando dinheiro para perder e ficarem com seus rostos deformados... Jesus!

Quando as casas de apostas aproveitaram o mundo digital para ampliarem sua abrangência, nenhum esporte escapou. E, claro, como aquele mais procurado, o futebol! São patrocínios master nos clubes, naming rights de estádios e de competições oficiais, jogadores em atividade e aposentados contratados como garotos-propaganda! Até narradores esportivos entraram nessa onda! Uma farra de total conflito de interesses!

Até meados no ano passado, havia mais de dois mil sites de apostas só no Brasil. Um cerco legal e fiscal sobre eles fez com que esse número caísse para 213 na virada para este ano mas o país é recordista mundial em visitas para apostas online: 3,19 bilhões de "curiosos", 25% do tráfego global, por mês! A maior receita ainda está nos EUA: 26 bilhões de dólares, também por mês! Números impressionantes que mudam com muita rapidez. E sempre pra cima!

Assim, é sabido que vários jogadores de futebol em todo o mundo já tiveram problemas com envolvimento em fabricação de resultados e manipulação de lances. Como é possível apostar em qualquer coisa, o recebimento de cartões amarelos, por exemplo, é tratado como algo menor, mais ingênuo mas não menos inescrupuloso, estelionatário e fraudulento. Crimes explícitos em qualquer Código Penal. Sem pesquisar muito, lembro de suspensões pesadas acertadamente impostas pelo STJD aos zagueiros Vitor Mendes do Fluminense e Bauermann do Santos, o atacante Alef Manga do Coritiba, o volante Richard do Cruzeiro. Na Inglaterra, astros da seleção também sofreram, como o lateral Trippier e o atacante Sturridge. E ainda há o caso do brasileiro, ex-Flamengo, Lucas Paquetá, do West Ham de Londres, a ser julgado ainda esse ano. Luiz Henrique, atacante ex-Fluminense, Bétis e Botafogo, atualmente na Rússia, também se complicou.

Entretanto, duas questões chamam minha atenção neste novo episódio, ou nem tão novo assim, do atacante Bruno Henrique, do Flamengo.

"Não fiz nada!"
A primeira passa pelo fato de que a denúncia não é de agora mas do final de 2023. O mesmo STJD arquivou o processo pois a CBF não viu qualquer irregularidade, mesmo após a instituição contratar a tal empresa SportRadar para investigar indícios de fraude. A Procuradoria do Tribunal emitiu nota em 2024, na qual "considerou que o alerta não apontou nenhum indício de proveito econômico do atleta, uma vez que os eventuais lucros das apostas reportados no alerta seriam ínfimos, quando comparados ao salário mensal do jogador!"

Bruno Henrique só faltou jurar com a mão na Bíblia que era inocente! Foi emocionante!

A segunda passa pelo fato de que a nova denúncia, agora pela Policia Federal, mostra provas cristalinas do envolvimento do jogador e de familiares. Tudo muito claro. Não há para onde correr! Bruno Henrique está indiciado. Assim como seu irmão.

O presidente do STJD, Luis Otávio Veríssimo, eleito em julho do ano passado, em entrevista à ESPN, afirmou que estará atento. Ele é professor do IDP, aquele mesmo instituto cujos sócios são Gilmar Mendes, Ministro do STF, e seu filho que fica com mais de 80% das receitas dos cursos desenvolvidos e ministrados na "CBF Academy", em contrato firmado em agosto de 2023. Já escrevi sobre isso aqui: CÚMPLICES

Por sua vez, o Flamengo soltou nota enfatizando o princípio jurídico de "presunção de inocência" e que ainda não havia sido notificado oficialmente sobre a denúncia. Lógico que o jogador, como qualquer cidadão, tem direito à defesa mas será que a gestão do clube viu os diálogos do whatsapp, divulgados pela PF, antes de emitir a tal nota? Ao menos, Bruno Henrique não atuou ontem na goleada que seu time impôs ao Juventude, no Maracanã, pelo Brasileiro. Mas ele estava lá, no banco, para receber aquela força dos companheiros, que parecem acreditar em sua inocência, aparecer um pouquinho para mostrar que tem a consciência tranquila...

Até agora, Bruno Henrique, de 34 anos, não se manifestou, devidamente orientado por seus advogados. Essa deverá ser uma defesa interessante.

Em 2019, no auge do grande momento em que vivia com o Flamengo, Bruno Henrique deu entrevista dizendo que estavam "em outro patamar"!

Era verdade mesmo mas agora o parafraseio para afirmar que as acusações contra si não mais estarão no âmbito esportivo.

Estarão em outro patamar!

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Os Doze de Uma Só: 9 - CARLINHOS

Nome: Luiz Carlos Nunes da Silva
Apelido ou Mais Conhecido como: CARLINHOS (o Violino)
Nascimento: 19/11/1937 - Rio de Janeiro RJ
Falecimento: 22/06/2015 - Rio de Janeiro RJ
Uma Só Camisa: FLAMENGO RJ
Período: 1958 a 1969 - 11 anos
Posição: Volante ou centromédio (destro)
Jogos: 517 - 275 Vitórias, 112 empates
Gols: 23
Seleção Brasileira: 1 jogo - 1 vitória!

"O Flamengo é a minha segunda casa!"

A maioria das composições clássicas incluem o violino como o principal instrumento de cordas, que faz acentuar a melodia de uma orquestra. Exige muita dedicação e postura de quem o toca. Dependendo de como é performado, produz um timbre aveludado e único. É o instrumento musical mais valioso já criado (pelo italiano Gaspar de Saló, no século XVI). Um Stradivarius de 1729, criado pelo também italiano Antonio Stradivari e produzido em não mais do que mil unidades desde então, alcançou a bagatela de um milhão e setecentos mil dólares em leilão na Inglaterra em 1990 e o "Messias", exemplar solitário e invendável de Antonio, feito em 1716, não tem preço. Está no Museu de Oxford, no Pavilhão Hill, dedicado à música!
O "Messias"
Com as chuteiras de Biguá
Esse é o motivo pelo qual Carlinhos ganhou tal apelido. Atuando em uma década de predomínio do Botafogo, Santos, Palmeiras e Cruzeiro no futebol brasileiro, conduziu o Flamengo a dois títulos cariocas (63 e 65) e a um do Torneio Rio-SP (61). Jogava de cabeça erguida, passes precisos e refinados, cortes sem fazer falta. Plena noção do campo de jogo e conduzia com categoria clássica, uma orquestra que continha Jadir, Jordan, Joubert, Gerson (o canhotinha de ouro, iniciando carreira), Paulo Henrique, Espanhol, Henrique Frade, Dida, Babá, Osvaldo "Ponte Aérea" e seu maior companheiro de meio-campo, Nelsinho Rosa, que depois se notabilizou como técnico vencedor no próprio Flamengo, Fluminense e Vasco! 
O fiel parceiro Nelsinho
Com Gérson, então "Topetinho" de Ouro!
Aos 16 anos, Carlinhos chegou a treinar nos juvenis do Botafogo mas não vingou. Agradou tanto na Gávea no ano seguinte que o célebre lateral rubronegro Biguá, ao se despedir do futebol, em gesto simbólico, entregou suas chuteiras a ele, confiando que em futuro próximo, estaria ali um grande jogador!

Acertou em cheio. Oitavo jogador que mais vestiu a camisa do Flamengo e ganhador do Troféu Belfort Duarte, aquele que premiava o jogador que nunca havia sido expulso em pelo menos 10 anos de carreira. No Carioca conquistado em 1963, comandou seu time no Fla-Flu decisivo em que precisava do empate. É considerado o maior público presente da história do futebol brasileiro em jogo entre clubes e um dos maiores do mundo em todos os tempos: 194.063! Comandou a defesa contra a pressão tricolor e garantiu o 0x0 salvador. Herói do título!
Entrando no Fla-Flu de 1963

Campeão 1963
Única decepção que Carlinhos teve no futebol foi a seleção brasileira. Somente uma única oportunidade em 1965, num amistoso no Maracanã contra Portugal. Antes disso, estava na pré convocação para a Copa de 1962. O técnico Aymoré Moreira preferiu Zequinha do Palmeiras para a reserva de Zito. Zequinha não era melhor que Carlinhos. O argumento para a escolha foi surreal: Aymoré queria contrabalançar o peso entre cariocas e paulistas. Se levasse Carlinhos, seriam mais cariocas...

Ao encerrar a carreira, lembrou de Biguá e pensou a quem poderia entregar suas chuteiras! Encontrou um menino franzino de 17 anos, destaque das categorias de base! Veja na foto quem foi!
Chuteiras bem entregues?
Passou a trabalhar como treinador das categorias de base do clube e teve a primeira de suas sete passagens na equipe principal em 1983, com a saída de Paulo César Carpeggiani. E ainda ganhou outro apelido, agora exclusivo como técnico: Bombeiro! Sempre acionado para apagar incêndios! Conciliador, voz fina, fala mansa, extremamente gentil e educado. E fez bonito. Campeão do sempre polêmico Módulo Verde Copa União 1987, Campeão Brasileiro 1992, três vezes Carioca (91, 99 e 2000) e uma Copa Mercosul (99)! 313 jogos! Ainda treinou o Guarani de Campinas e o Remo de Belém mas sem o sucesso de "sua segunda casa"!
O Bombeiro "Fala Mansa!"
Merecidamente ganhou busto em vida na sede da Gávea. Sua biografia está bem contada em livro escrito por Renato Zanata e Bruno Lucena, com prefácio do menino que recebeu suas chuteiras! 

Vítima de insuficiência cardíaca, aos 77 anos, Carlinhos deixou a vida terrena para explicar a São Pedro o que é viver o Flamengo. Faz isso todo dia!

Para o décimo de uma só camisa, manteremos a posição mas voltaremos às alterosas... 


sexta-feira, 11 de abril de 2025

DA "BICICLETA" À MORTE: UMA TRAGÉDIA CHILENA

O futebol chileno sempre foi discreto no cenário mundial. No sul-americano também. No máximo, conquistou dois títulos continentais recentemente e revelou ótimos jogadores que se destacaram, em sua maioria, jogando fora do país.

Foi terceiro na Copa do Mundo que sediou em 1962, perdendo a semifinal para o Brasil. Tinha bons jogadores como o meio-campista Jorge Toro e o atacante Leonel Sánchez, um dos artilheiros da competição.

Entre as décadas de 1960/70, dois excepcionais surgiram: O atacante Carlos Caszely e o zagueiro Elias Figueroa, um dos maiores ídolos da história do Internacional de Porto Alegre.
Don Elias Figueroa
Realizaram um grande feito na Copa América de 1987, na Argentina, ao golearem o Brasil de Carlos Alberto Silva por 4x0 mas perderam a Final para o Uruguai. Na virada desta década, armaram aquela vergonha nas Eliminatórias da Copa contra o mesmo Brasil no Maracanã (eu estava lá), que lhes rendeu uma suspensão de cinco anos pela FIFA. Ao voltarem, tiveram uma boa geração com os atacantes Marcelo Salas e Ivan Zamorano, além do meio-campista José Luiz Sierra, que jogou no São Paulo.
Salas e "Bam-Bam" Zamorano
Seu grande momento, sem dúvida, foi a década de 2010, quando a geração de Alexis Sánchez, Arturo Vidal, Jorge Valdivia, Eduardo Vargas, Gary Medel, Charles Aranguiz e do goleiro Cláudio Bravo conquistou as primeiras e únicas Copas América de sua seleção em 2015/16 e quase eliminaram o Brasil na Copa 2014, perdendo disputa dramática de pênaltis, nas oitavas-de-final.

Há um capítulo à parte. Ao contrário do que se pensa aqui no Brasil, o grande Leônidas da Silva não foi o inventor do "gol de bicicleta" mas seu principal divulgador. Na verdade, o espanhol basco, naturalizado chileno, Ramón Unzaga o fez pela primeira vez na Copa América de 1920, no Chile, contra a Argentina. Foi um espanto. Os jornalistas portenhos e espanhóis que cobriam o evento logo colocaram o apelido: "gol de chilena"! Leônidas fez seu primeiro lance (e não gol) em 1932, quando ainda jogava pelo Bonsucesso, no seu campo da Rua Teixeira de Castro. Fez de novo pelo São Paulo na década de 1940, em foto histórica no Pacaembu. Depois, o Rei Pelé tomou conta do lance!
Homenagem no Estádio de Talcahuano, Sul do Chile
Ao longo da década de 1920, outro chileno, David Arellano (Opa! Atenção!), também passou a executar a jogada com maestria. Arellano foi o fundador do Colo-Colo, em 1925, nome do principal cacique "mapuche" (leia-se mapútxe), povo nativo da terra, jamais derrotado pelos espanhóis, durante a colonização! Dois anos depois, Arellano estava com seu time recém-fundado em excursão por Portugal e Espanha. Após algumas "chilenas" acrobáticas, sofreu uma peritonite e não resistiu. O escudo do Colo-Colo tem uma tarja preta acima do desenho do cacique até hoje para honrar o luto ao fundador e craque eterno!
O Fundador
Os clubes chilenos nunca foram protagonistas frequentes na História da Taça Libertadores. O Cobreloa, de Calama, foi vice-campeão em dois anos consecutivos em finais bem tumultuadas contra Flamengo e Peñarol, respectivamente, em 1981/2. E em 1991, o Colo-Colo conquistou o título também com muita confusão e invasão de campo no seu estádio, em final contra o Olímpia do sempre polêmico Osvaldo Domínguez Dibb (você já leu sobre ele aqui: O PLANETA CONMEBOL). Em 1993, a Universidad Católica foi vice-campeã ao perder a Final para o São Paulo e em 2011, o Universidad de Chile conquistou a Copa Sul-Americana, comandada pelo argentino maluquinho Jorge Sampaoli, que foi o técnico da seleção chilena nas conquistas que citei acima e na Copa 2014. E pararam por aí!
A única do Chile
O Chile é um país de geografia única. Vai de deserto árido ao gelo congelante, passando por lagos, vulcões, milhares de ilhas, vinhedos incríveis, florestas, praias magníficas e o melhor céu para a astronomia, sem contar os riscos constantes de terremotos e tsunamis. Sim. Eles ainda acontecem.
A parada é séria
Imagine, então, ter que renovar sua "safra" de jogadores de futebol que concorrem com o rugby e o hóquei sobre patins. São 19 milhões de habitantes. Menos de 10% do Brasil, por exemplo. Os últimos desempenhos de "La Roja" em torneios de base no continente têm sido pífios. 

Agora, junte-se uma Conmebol omissa, dirigentes incompetentes de um clube, "hinchas" descontrolados e o despreparo do poder público local, seja com Ministério do Interior, Comissão de Segurança em estádios e os cada vez mais desprestigiados "Carabineros", com salários defasados, mal treinados e ridicularizados desde os "quebra-quebras" de 2019 na capital Santiago.

Ontem, o Estádio Monumental David Arellano, do Colo-Colo, viveu um dos seus mais tristes dias. A morte incompreensível de dois jovens (uma jovem de 18 anos e um menino de 13), que possuíam ingressos, aliado a mais uma invasão de campo, precedida por dano ao patrimônio faz Arellano se revirar no túmulo no ano do centenário do clube que fundou!

A seleção do Chile está em 10o. lugar na tabela das Eliminatórias da Copa de 2026, ou seja, em último. A última que participaram foi justamente a de 2014.

Talvez tragédias como a de ontem ajudem a explicar tal fato.

terça-feira, 8 de abril de 2025

O CAMPEONÍSSIMO DOS DEDOS TORTOS

Quando tinha 15 anos, em 1952, Hailton Corrêa de Arruda trabalhava em uma fábrica na sua cidade natal, Recife. Já gostava de jogar as suas "peladas" e sempre fazia questão de ir para uma posição que ninguém queria: goleiro!

Descoberto por um olheiro do Sport, foi aprovado e entrou para o time de juvenis do Leão, mesmo 3 anos mais novo que o mínimo desta categoria. Já era alto, forte e muito ágil. Perto do campo de treinamento, havia uma enorme mangueira que Hailton tomava conta quando os frutos mais maduros caíam. Recolhia vários pelo chão e então, o apelido pegou: Manga!
A maior árvore frutífera do mundo!
Após ter sido tricampeão pernambucano de juvenis (na campanha de 1954, não tomou gol), assumiu a posição de titular do Sport aos 18 anos, numa excursão à Portugal, quando o grande Oswaldo Baliza, ídolo do Botafogo e Vasco nos anos 1940/50, se lesionou. Suas grandes atuações chamaram a atenção de João Saldanha que recomendou sua contratação ao alvinegro carioca.

Campeão pernambucano em 1958, Manga chegou ao Botafogo no ano seguinte para fazer História! Era parte integrante de um time espetacular, quatro vezes campeão carioca, três do Rio-SP e uma da Taça Brasil nos anos 1960. Arrojado, colocação perfeita, pontes espetaculares e tudo isso, sem luvas! Era um show à parte! 
Sem luvas...
Nesta época, o Botafogo criou um histórico de vencer o Flamengo na maioria das vezes em que se enfrentavam. Na semana que antecedia o clássico, Manga dizia que já gastava o "bicho" da vitória por antecipação! Na final do Carioca de 1967, o mesmo João Saldanha que recomendou sua contratação, o acusou de receber suborno de Castor de Andrade, patrono do Bangu, rival da Decisão. O Botafogo venceu por 2x1 e foi campeão mas as más línguas dizem que Saldanha invadiu o vestiário do Maracanã para dar dois tiros em Manga que fugiu rapidinho! Outra versão, contada pelo próprio Saldanha, aponta para o fato ter ocorrido dois dias depois da Final. E não atirou no goleiro mas para cima, para assustar! Manga pulou o muro de General Severiano e saiu correndo em disparada para o Iate Clube, próximo dali, para se esconder! De uma maneira ou de outra, surreal!


Parando Ubiracy!

Bloqueando Dida!

A Parede das Estrelas!
A seleção brasileira chegou em 1965. Foram 12 jogos até o ano seguinte. Foi bem em 10 deles mas os que ficaram marcados foram os outros dois. Amistoso contra a URSS, do goleiro Lev Yashin, o Aranha Negra, no Maracanã! Brasil ganhava por 2x0, quando Manga foi bater um tiro de meta. Após chutar, voltou para o gol de costas para o campo. A bola bateu na nuca do atacante soviético e entrou: 2x1. Logo depois, Manga tinha a bola dentro da área. Saiu jogando errado e entregou-a nos pés de outro atacante: 2x2, placar final. Na Copa de 1966, entrou no lugar de Gylmar na partida decisiva contra Portugal. Nervoso, falhou no segundo gol luso. A derrota por 3x1 eliminou o Brasil da Copa ainda na fase de grupos!

Após 10 anos de Botafogo, o Atlético Mineiro fez proposta mas Manga acabou fechando com o Nacional de Montevidéu. Foram 6 temporadas. Agora, com luvas! Frio? rsrs. Quatro vezes campeão uruguaio. Libertadores e Intercontinental, ambos em 1971. Ídolo eterno no Gran Parque Central. Voltou em 1974 para o Internacional. Tricampeão gaúcho e Bicampeão Brasileiro em 1975/76. Aos 40 anos, recebeu convite de outro histórico goleiro, Castilho, então técnico do Operário de Campo Grande, do então estado de Mato Grosso: novamente campeão estadual em 1977 e semifinalista do Brasileiro, perdendo para o São Paulo, que seria o campeão!
Luvas no Uruguai


Com o futuro técnico Castilho!
1978: campeão paranaense pelo Coritiba. 1979: de novo campeão gaúcho, agora pelo Grêmio! Então, partiu para Guayaquil no Equador, quando foi campeão nacional pelo Barcelona em 1980/81, aos 44 anos. Se aposentou lá mesmo no ano seguinte, onde seguiu como treinador de goleiros no Emelec e no Deportivo Quito. Nos anos 1990, se mudou para Miami para abrir escola de goleiros para crianças. De 2009 a 11, foi treinador de goleiros do Internacional em Porto Alegre e os problemas renais começaram. Voltou para o Equador mas em 2020, o ator e ilustre botafoguense Stepan Nercessian, presidente do Retiro dos Artistas no Rio, o convidou para morar lá! Quem disse que Manga não era um artista?!
No Equador, com Escurinho!
Os Artistas!
O dia 26 de abril, seu aniversário, foi sugerido pelos preparadores físicos Raul Carlesso e Reginaldo Bielinski como o Dia do Goleiro, em sua homenagem!

O falecimento de Manga no dia de hoje, no Rio de Janeiro, em decorrência de complicações de câncer de próstata, deixa um vazio enorme no futebol! 

Em sua época, soube como poucos levar o romantismo ao esporte e receber idolatria de torcedores de todos os times e não somente daqueles que defendeu! Parte para o andar de cima com uma missão muito clara que, seguramente, São Pedro entenderá.

Será campeão nos Jogos do Céu!

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Os Doze de Uma Só: 8 - ALTAIR

Nome Completo: ALTAIR GOMES DE FIGUEIREDO
Apelido ou Mais Conhecido como: ALTAIR (o Fiapo)
Nascimento: 22/01/1938 - Niterói RJ
Falecimento: 09/08/2019 - São Gonçalo RJ
Uma Só Camisa: FLUMINENSE RJ
Período: 1955 a 1970 - 15 anos
Posição: Lateral Esquerdo e Quarto Zagueiro (Canhoto)
551 jogos: 300 Vitórias, 109 empates
Gols: 3
Seleção Brasileira: 22 jogos - 1959 a 1966 - Copas do Mundo (1962 e 1966)

"Era o Rio-São Paulo de 1960, quando o Fluminense, que seria o campeão, empatou com o Botafogo em 2x2, no Maracanã. Com o jogo empatado, o zagueiro tricolor Pinheiro se lesionou, sozinho, e caiu no gramado, no momento em que a bola estava com... Garrincha! Percebendo Pinheiro caído, Mané chutou a bola para a lateral, propositalmente, quando tinha muito espaço para chegar à área tricolor e tentar desempatar (...) Após Pinheiro ser atendido, o lateral-esquerdo tricolor Altair foi bater o arremesso lateral e deixou a bola quicar, dando alguns passos para trás, permitindo que Garrincha novamente a tivesse em seus pés."

Trecho de "Hoje é Dia de Fluminense", deste autor!

Após muita pesquisa, esta passagem parece ser a origem do Fair Play, cujos protagonistas travaram inúmeros duelos. Garrincha era um tormento para qualquer lateral esquerdo e Altair foi o seu mais leal marcador.

Quarto jogador que mais vestiu a camisa do Fluminense na História, Altair começou no time amador do Manufatura de Niterói, sua cidade natal. Chegou para treinar em Laranjeiras aos 17 anos, querendo jogar na zaga. Até começou ali nos juvenis com o eterno amigo Jair Marinho (que fez historia na lateral direita, inclusive na seleção), mas quando foi chamado para a equipe principal, não  havia como ser zagueiro. Havia 2 gigantes por lá: Píndaro e Pinheiro! Como Bigode havia acabado de encerrar a carreira, fez o teste em seu lugar na lateral esquerda e nunca mais saiu!

Aquecimento!
Altair foi um marcador implacável, preciso nos cortes e antecipações, não perdia divididas, um dos primeiros (se não foi o primeiro) a aplicar "carrinhos" visando somente a bola. E não inventava! Ao recuperá-la, tocava rapidamente com simplicidade e categoria. Jogava duro apesar de seus humildes 59 quilos (mantidos por toda a vida) em 1,73 m de altura. Magrinho, um "Fiapo", mas forte e veloz! Preparo físico invejável e muita impulsão!

Castilho e Dino Sani observam!  Campeão Rio-SP 1957
Sua eficiência ajudou o Fluminense a conquistar três Cariocas, duas Taças Guanabara (quando era uma competição à parte) e dois Torneios Rio-São Paulo. Abaixo, o time campeão carioca de 1964: Carlos Alberto Torres, Altair, Oldair, Valdez, Castilho e Procópio. Jorginho, Denilson, Amoroso, Joaquinzinho e Gilson Nunes!

Campeão 1964
A seleção brasileira veio com naturalidade. Primeira convocação em 1959 e seguiu como reserva de Nilton Santos até a Copa de 1962. Conquistou três Taças O'Higgins (sempre disputada contra o Chile) e foi titular em 2 das 3 partidas que o Brasil atuou na Copa de 1966: vitória contra Bulgária (2x0) e derrota para Hungria (1x3).


Brasil 2x0 Bulgária - 1966

Djalma Santos, Denilson, Bellini, Gylmar, Altair e Paulo Henrique. Garrincha, Lima, Alcindo, Pelé e Jairzinho. Garrincha e Pelé marcaram, ambos de falta. Foi o último jogo em que atuaram juntos!

A partir da Copa, gradativamente, começou a jogar na quarta zaga, sua antiga preferência, quando chegou um novo titular para a lateral esquerda: Marco Antonio. 

Encerrou a carreira imediatamente antes da Copa do Mundo de 1970. Abriu casas lotéricas em Niterói, onde também trabalhou na prefeitura com projetos de futebol para crianças mas não aguentou ficar longe do Fluminense. Nos anos 1990, foi convidado para fazer parte de algumas comissões técnicas da equipe principal e em algumas vezes, interinamente, assumiu o comando do time. No célebre título carioca de 1995, era o auxiliar técnico de Joel Santana! Foi campeão com o time B da Copa Rio, em 1998.

Com Conca e Diguinho - 2010
Altair foi diagnosticado com Alzheimer em 2013. Sua esposa e filha já eram falecidas. Sua passagem, seis anos depois, fez o Fluminense decretar três dias de luto e batizar um dos campos do Centro de Treinamento Carlos Castilho com o seu nome. A CBF determinou um minuto de silêncio em todos os jogos da rodada do Campeonato Brasileiro!

Imortalizado
O "Fiapo" foi um exemplo de dedicação ao Fluminense! Gentil, simpático, bem educado e muito futebol!

Próximo episódio: Um instrumento musical em pleno meio de campo!

segunda-feira, 31 de março de 2025

Os Doze de Uma Só: 7 - PEPE

Nome Completo: JOSÉ MACIA

Apelido ou Mais Conhecido como: PEPE (Canhão da Vila)

Nascimento: 25/02/1935 - Santos SP

VIVO

Uma Só Camisa: SANTOS SP

Período: 1954 a 1969 - 15 anos

Posição: Ponta-Esquerda (canhoto)

741 jogos: 403 gols

Seleção Brasileira: 40 jogos - 27 gols - Copas do Mundo: 1958-62 - Bicampeão Mundial


"Eu sou o maior artilheiro da História do Santos! Pelé? Pelé não é deste planeta. Eu sou!"

Pepe enche a boca para afirmar tal frase! Já fez isso milhares de vezes nas milhares de entrevistas e palestras que já deu ao longo de seus 90 anos bem vividos, completados no mês passado, com direito à justíssimas homenagens do clube, da imprensa, torcedores e de todos que apreciaram sua excepcional carreira como jogador, treinador, comentarista! É uma das grandes unanimidades do futebol brasileiro!

As conquistas de Pepe no futebol têm muito a ver com o que fez o Santos se transformar em um dos grandes times do mundo em sua época. Ou o maior deles! É o recordista de títulos paulistas (11), recordista de títulos da antiga Taça Brasil (6), quatro Torneios Rio-SP, duas Libertadores da América, dois Mundiais Interclubes. É o jogador com maior número de títulos por um clube, um a mais que Pelé! Seu protagonismo é notório! Seus 403 gols pelo Santos estão abaixo apenas do Rei (que não era deste planeta), Roberto Dinamite do Vasco, Carlitos do Internacional (CARLITOS AQUI) e Zico do Flamengo. Nunca foi expulso de campo. Ganhou o Prêmio Belfort Duarte por conta disso. Um gentleman!

Filho de imigrantes espanhóis da Galícia, seu pai tinha uma mercearia em Santos e não gostava que "Pepito" fosse jogar futebol, um jogo de "malandros". Ao se destacar nos times de amadores da vizinha São Vicente, foi descoberto pelo olheiro do Santos, Salu, em 1951. E já estava na Vila Belmiro desde o Juvenil em 1952 e estreou na equipe principal dois anos depois em derrota para o Fluminense pelo Torneio Rio-SP. E já no ano seguinte, chegava seu primeiro título paulista! Era o segundo do Santos, cujo primeiro foi, curiosamente, no ano em que nasceu!

A Primeira Faixa
Os gols começavam e a violência do chute de canhota ganhou fama, sobretudo em cobranças de falta! Derrubou muitos jogadores que ficavam na barreira! Chegava a alcançar incríveis 122 km/h! O apelido de "Canhão da Vila" se espalhou rapidamente pela torcida e imprensa. Repare no desespero dos jogadores do Juventus na foto abaixo!

Lá vai bomba do Canhão da Vila

Mais uma...
Foi uma peça perfeita na engrenagem do grande Santos que encantou o mundo entre 1959 e 63. Gylmar, Dalmo, Mauro, Lima, Calvet, Zito, Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe! Um patrimônio do futebol!


Houve esquadrão melhor?
Na seleção brasileira, Pepe também foi gigante mas justamente nas vésperas de duas Copas do Mundo (58 e 62), se lesionou. Era o titular absoluto e o "sortudo" Zagallo acabou herdando a posição. Tinha outro estilo de jogo, menos agressivo e goleador mas que acabou dando certo. 

Brilhando de amarelo
Após se aposentar em 1969, com volta olímpica na Vila Belmiro, Pepe passou a treinador de destaque. No Santos, no título paulista de 1973, aquele que o árbitro Armando Marques fez aquela confusão na disputa de pênaltis contra a Portuguesa. Acabaram campeões empatados mas o Santos ainda tinha direito a mais uma cobrança! Lambança! Depois, à frente da primeira conquista paulista de um time do interior, a Inter de Limeira, em 1986, e no mesmo ano, campeão brasileiro com o São Paulo!

Claro que sua vida foi registrada em livro, uma autobiografia denominada "Bombas de Alegria", relançada no mês passado como parte integrante das comemorações de seus 90 anos!

Parabéns, "Seu" Pepe! 

Enquanto esteve em campo, o hino do Santos mudava de "Campeão absoluto desse ano" para "Campeão Absoluto todo ano"!

Ano 90... e contando!

Para o próximo dos Doze de Uma Só, o lado esquerdo continua, voltando para aquela outra praia famosa...